A GAROTA DO CIRCO



      
Era uma vez uma garota que nasceu em uma viajem, como já era tradição de todos integrantes da família. Sua mãe se recompondo em poucos segundos, observou o céu nublado e disse brevemente: “Bhrisa, a garota que se assemelha com a neblina”. O pai sorriu pensativo, passou a mão na barbicha e disse: “A garota que vai e vem”. A mãe acariciando o cabelo da recém nascida disse com uma voz suave: “Você é um palhaço mesmo!” E foi dessa forma inusitada, no meio da estrada que nasceu mais uma circense, eu!

     A maioria das garotas da minha idade estão preocupadas com a nota do vestibular, outras com as festas, dentre milhões de outros dramas clichês da rotina. Mas a minha única preocupação é fazer o outro sorrir. Desde novinha eu nunca soube direito o significado da palavra rotina, afinal cada dia eu estou em um lugar. Não ache que é sempre legal ter uma família nômade, mas ainda assim o poder de tocar uma pessoa é indescritível.  Então é dessa forma que eu vivo, seguindo o vento e o destino!

      Nessa semana ficaremos em Ponte Nova, uma cidade bem calma da região de Minas Gerais. Já me matriculei em uma escola, e esse é o ponto mais difícil de viver em um circo. Cada semana uma turma diferente, professores diferentes, matérias diferentes. Cada dia uma experiência nova. Nem me pergunte como são as questões de notas, pois nem mesma eu saberei te explicar.

       Tem vezes que os professores estão muito adiantados, outras vezes muito atrasados. E dessa forma eu vou tendo meus altos e baixos, como o vento que sopra mais em uma noite de inverno. Mas apesar de todas essas complicações eu sou totalmente realizada por fazer parte da magia da minha família, que já tem seis gerações no circo. Meu avô foi um grande palhaço, meu pai herdou seu talento, e o meu irmão está tendo seguir o mesmo caminho. Já minha mãe que não nasceu no circo, mas acabou se envolvendo nesse universo devido ter se apaixonado pelo meu pai em uma de suas apresentações, se tornou uma grande trapezista, que é algo que eu também almejo para o meu futuro.

     Então desde que eu me entendo por gente, eu me lembro de estar enroscada em alguma corda pulando contra a imensidão dos sonhos da plateia. Até tento pensar em como seria se eu tivesse uma vida normal, mas no mesmo segundo eu percebo que dessa forma eu que seria anormal. Então eu prefiro muito mais ser livre.

    Assim que cheguei na escola a diretora apresentou minha situação para turma dizendo que eu era circense, muitos ficaram curiosos, outros apenas ignoraram. Como eu já estava acostumada apenas abaixei a cabeça e fui para um lugar escondido na sala, onde eu pudesse ficar bem quieta anotando seja lá o que a professora estivesse passando, e pensando no número que teria de apresentar  à noite. Foi quando vi no quadro a seguinte pergunta: “Animais no circo devem ou não serem proibidos?”, aula de sociologia!

    Respirei fundo percebendo a enrascada que eu tinha me envolvido, a professora vendo minha cara foi logo pedindo minha opinião, que por sinal era bem formada. Pensei em não dizer nada, mas com certeza todos achariam que eu era uma tapada. Então eu disse que achava que não deveria ser proibido, pois o circo tem grandes domadores, especializados em animais, que tratam eles com todo o carinho do mundo, possibilitando com que outras pessoas conheçam tais seres de forma mais próxima, sem ter um limite de grade ou figura de livro. Desenvolvendo a expressão cultural e artística das cidades por onde passamos.

    A professora agradeceu pela opinião, mas uma garota começou a dizer que eu estava muito errada. Porém eu resolvi ignorar como sempre, e dessa forma a aula acabou. Então fiquei pensando no azar que eu tinha de ter pisado naquele lugar de última hora. No final da aula uma garota apareceu me cumprimentando e perguntando se e tinha o interesse de ir com ela em uma festa junina de outra escola, o tal do “Arraial Da Federal”, hesitei por um momento. Mas quase que imediatamente eu disse sim, e ela que parecia muito simpática sorriu pegando meu número.

    Logo em seguida, eu fui para “casa”, e chegando lá comecei a observar a neblina que se formava na tarde acinzentada, e pensei em como ser tão livre, fazia com que eu também me sentisse tão presa, por muitas vezes não consegui nem sentir o pulsar do meu coração que sempre se confundi com as expectativas do telespectadores. Não ache que estou reclamando, pois na verdade eu gosto de ser essa Bhrisa...


Gabriel Bhering


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