CUPIDO ENFEITIÇADO

Manuela
Desde bem novinha eu lembro das festas juninas do colégio que eu nunca deixei de participar. Colocava um vestido rodado xadrez, amarrava o cabelo estilo maria Chiquinha e entrava na roda. Eu era a mais animada da turma, cantava no ritmo da música e animava a galera tímida que nem saía do lugar. Com o tempo fui ficando mais inibida, porém nunca deixei de participar. Assim que maio vai chegando ao fim já altero minha play-list para as músicas de quadrilha e fico aguardando ansiosamente o dia.
Esse ano não poderia ser diferente, aqui estou eu sentada de frente para o espelho tentando fazer as famosas pintinhas na bochecha. De repente, meu celular notifica uma mensagem dele no WhatsApp: “Assim que estiver saindo me avisa! Estarei na praça te esperando”, a quadrilha será no colégio em frente à praça devido alguns empecilhos no local onde eu estudo.
Quando fiquei pronta meu pai já estava na sala me esperando enquanto lia calmamente alguma notícia do jornal regional.
“Vamos filha para o Arraiá”, apenas sorri em consentimento. Por mais que tenha insistido para que ele e minha mãe fossem, os dois não se animaram, então ele apenas me levaria. Quando meu pai me deixou na praça, ouvi o som ao fundo da Festa que já começava a esquentar os corações endurecidos pelo frio que estava fazendo. Procurei ele ao redor dos bancos e encostado em uma arvore lá estava ele sorrindo em minha direção. Seu cabelo estava meio molhado, escapando do chapéu de palha que permitia a ele um ar de “jeca”.
Conheci o Diogo a mais ou menos um ano desde que entrei para o ensino médio. Assim que as aulas começaram no primeiro ano ele não perdeu tempo em me chamar nas redes sociais, e assim começamos a ficar. Nossa relação ainda é um pouco indefinida. Eu gosto de estar perto dele, gosto do jeito dele de ser, ele me faz bem e isso que importa. Quando cheguei onde ele estava, ele não perdeu tempo em me dar um beijo e dizer que eu estava linda, fazendo meu rosto ficar mais vermelho do que já estava.
Meu vestido era um modelo xadrez rodado da cor amarela que reluzia com a noite escura. Desde que eu tinha visto na vitrine fiquei encantada e não resisti. Diogo como sempre também estava muito lindo, usando uma camisa xadrez e uma calça meio surrada que lhe dava um ar despojado. Assim que nossas mãos se encontraram caminhamos para o Arraial da Federal que estava mais do que animado....
Depois de comermos em algumas barraquinhas e conversarmos com amigos em comuns, chegou a hora do grande momento a hora de dançar quadrilha. Bastou que o locutor anunciasse o momento, para que eu puxasse a mão de Diogo em direção ao centro do pátio onde o pessoal já começava a se posicionar em seus respectivos lugares. Bastou que a música começasse a tocar para que todos seguissem o ritmo da quadrilha maluca. Em meio aos modões juninos, tocavam músicas alternativas que deixava o pessoal ainda mais familiarizado com os passos que deveriam seguir.
Assim que a quadrilha chegou ao fim com muitos aplausos o Diogo me deixou conversando com a Julia enquanto iria ajudar pegas algumas bebidas no estoque improvisado, junto com o João. A Julia toda sorridente disse:
“Estou amando tudo! A decoração, as comidas, a dança, sem dúvidas é a festa junina do sonho. ”, concordei com ela pontuando algumas partes especificas que eu tinha amado, como por exemplo, O cupido.
Bem nesse momento, um garoto vestido exatamente igual a um cupido apareceu na nossa frente e entregou um recadinho bem na minha mão, soltando um sorrisinho sapeca.
Manuela,
Estou te esperando na parte lateral direita no fundo do colégio.
Um beijo do seu,
Admirador secreto.
“Isso é a cara do Diogo”, disse a Julia enquanto lia juntamente comigo as palavras escritas no recadinho. Sorri, imaginado que era mais uma peça que Diogo queria pregar em mim, só que dessa vez super-romântica. Segui em direção ao local combinado e chegando lá meu coração só faltou sair pela boca. Lá estava ele bem aos fundos quase invisível beijando uma garota do segundo ano, lágrimas brotaram nos meus olhos e aquela cena parecia ter arrancado todo o ar do mundo, pois eu não conseguia nem respirar. Minha cabeça só queria entender a droga daquele cupido enfeitiçado...
***
Benício
Desde que entrei no instituto eu não consigo parar de pensar nela, um sorriso crescente e um jeito que encanta qualquer um. Que pena, que não tem olhos para mim, um garoto de óculos meio atrapalhado que fica lendo Shakespeare nos intervalos. Enquanto os garotos populares (inclusive o "namorado" dela) ficam em rodinhas contando quantas “minas”, agarraram no ultimo role. Sinceramente, não consigo achar graça nos dois. Minha amiga disse que é dor de cotovelo, mas eu digo a ela que na verdade é apenas um olhar crítico sobre a vida. Ela ri, e diz “Coitadinho, você é tão iludido”
Eu disse que não iria a quadrilha, afinal qual seria a graça? Um garoto rodando perdidamente pela festa com um salgado na mão enquanto vê o tempo passar. Não que eu seja antissocial, apenas não vejo motivo de ficar mantendo relações de fachadas com pessoas sem nexo. E o pior de tudo, Pedro, meu brother vai dançar com Camila e provavelmente passar o tempo todo com ela. Ou seja, eu seria um ponto fora da curva.
Mas, devido ajudar a comissão de formatura acabei percebendo que era necessário ir. Então peguei uma camisa xadrez no guarda-roupa e aqui estou eu tentando ficar animado, pensando que poderia estar terminando de ler Otelo. Após a quadrilha maluca eu tive uma atitude muito louca e ouso dizer valente. Quando o Cupido passou bem na minha frente, fiz um gesto para que ele parasse e pedi um papelzinho pois eu queria mandar um recadinho para Manuela, que eu tinha percebido estava sozinha no momento apenas conversando com uma menina.
Quando terminei de escrever tive vontade de esconder minha cara em uma privada qualquer, mas uma força interior dizia que eu precisava escrever isso. Precisava, porque o meu coração já estava quase explodindo. Fui o mais rápido que eu consegui para o local combinado quase soando frio. Assim que cheguei lá encontrei, Diogo, o namorado da Manuela que estava beijando outra garota. Droga!
Apesar da Manuela não ser da minha sala já fizemos alguns trabalhos juntos e ela sempre foi muito legal comigo, e por sermos 'amigos" eu precisava falar para ela o que eu estava sentido. Caso, ela falasse que eu não tinha nada a ver, tudo bem, pelo menos eu teria tentado. Mas agora, eu percebi a confusão que essa história iria dar.
Assim que ela chegou toda sorridente e viu o que estava acontecendo seu sorriso desapareceu na hora e as lagrimas começaram a se formar, eu tive vontade de arrancar ela dali, mas não acabaria bem. Então de imediato ela se aproximou do Diogo e assim que ele se desvinculou do beijo, ela deu um tapa na cara dele com o rosto muito vermelho.
Inesperadamente ela se impulsionou para o local onde eu estava sentado observando a situação tentando parecer distante do que estava ocorrendo, e me lascou um beijo que fez meu coração literalmente explodir igual rojão de São João, só que de um jeito bom. Arrastando eu pela mão, caminhamos para longe dali...
Gabriel Bhering
Primeira Publicação: http://www.projetomural.com.br/2018/06/manuela-desde-bemnovinha-eu-lembro-das.html
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