AZAR NO JOGO, SORTE NO AMOR


 
Desde bem novo eu me lembro de estar com uma bola no pé. Correndo viela, ralando canela, e rindo à beça. No final da minha rua sem saída, tinha um campinho onde todas as tardes sem falta os moleques batiam na minha porta e gritavam: “E aí camisa 10, vamos jogar?”, eu rapidamente comunicava minha mãe que estava fazendo massa de bolo, e saía até com os chinelos trocados. Chegando lá já deixava meu chinelo de um lado para sinalizar o gol, e começávamos a tirar o time. Era a pior parte do jogo, porque todo mundo queria o Luquinhas no time, só porque ele fazia aula em escolinha de futebol. Então depois de muitas discussões começávamos a jogar. E era todo dia a mesma coisa: “E aí camisa 10, vamos jogar?”

Às vezes fico observando as crianças de hoje em dia e me assusto pela vida sem graça que elas levam. Nunca saberão o que é implorar para mãe um real para comprar um geladinho, ou correr desenfreadamente depois de ter apertado a campainha do vizinho, ou até mesmo bater bola. Mas fazer o que, a cada geração uma partida diferente. Conforme fui crescendo tive que me dedicar mais aos estudos e não consegui entrar para um time profissional, e realizar meu grande sonho de ser “O camisa 10”. Mas ainda assim toda terça, quinta e sexta estou lá no clube batendo uma bolinha.

E foi dessa forma que eu conheci ela, igual uma sereia, sempre treinando nas águas. Não demorou muito para que eu arranjasse o WhatsApp dela e começássemos a conversar sobre esportes. Então em uma festa do clube acabamos ficando, logo em seguida já estávamos namorando. E é dessa forma que estamos até hoje. Enquanto tinha esses pensamentos desconexos, ela passou a mão pelos meus lábios me puxando para um beijo suave, que foi se intensificando aos poucos. Dizendo isso ela cochichou no meu ouvido com a voz mais manhosa desse mundo: “Você vai mesmo me trocar por causa dos jogos internos do IF?”, soltei uma risada, e comecei a morder seu rosto bem de leve enquanto nossas bocas se encaixavam. “Eu não vou te abandonar”, disse fazendo cosquinhas em sua barriga, “Só não estarei aqui todos os dias, mas faço questão que você torça por mim!”.

Dizendo isso ela se aconchegou no meu abraço e ficamos juntinhos durante o anúncio de uma partida de vôlei que ela tanto gostava. Enquanto passavam os telespectadores antes de começar a partida comecei a pensar em como a vida é um jogo. Às vezes ganhamos, outra perdermos, brigamos, aprendemos e crescemos. Como se o time fosse a sociedade que estamos inseridos, com suas diversas complexidades. Mas o que eu acho mais interessante nessa linha de raciocínio é que não podemos ter tudo. Um exemplo claro disso na minha vida é o azar no JOGO e a sorte no AMOR...


Gabriel Bhering 


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