DO OUTRO LADO DO MURO

—Mãe, vou sair!
Gritei com a voz meio rouca com a
chave já na mão e um pé fora de casa.
—Filho onde você vai? Mamãe estava
fazendo uma sopa deliciosa para o jantar, achei que você não fosse sair...
—Eu... – antes que eu pudesse
continuar minha mãe me cortou .
—Amanhã vamos ter que sair para
resolvermos algumas coisas, esqueceu?
—Não, mãe. Só quero sair um pouco e
curti a noite, volto logo, prometo.
Beijei a sua testa e antes que ela
fizesse algum contra-argumento eu já estava caminhando na rua deserta, ouvindo
sua voz ficando para trás “Volte logo”. Coloquei meu casaco de couro surrado
buscando esconder o frio que começava a aumentar. Parei
em frente a um poste e tirei um isqueiro do bolso, ascendendo um cigarro.
Faz uns três meses que ando
fumando, e parece que essa sensação me acalma. Lá em casa anda uma confusão
depois que meus pais entraram em processo de separação. Ora eles estão
gritando, ora chorando. Nunca tive vontade de fumar, mas um certo dia contando
minha situação para um colega, ele pediu para que eu desse um trago, e aí não
parei mais.
Esses dias eu tenho andado com
vontade de desaparecer, sumir do mundo. As vezes parece que tudo deixa de fazer
sentido, o que tem me animado nesses dias é o encontro que marquei com uma
garota lá do colégio. Já conversamos algumas vezes pessoalmente entre os
corredores da escola, mas nada demais. Então, em uma conversa nossa pela
internet chamei ela para andar por aí, e ela topou.
Marcamos no banco da praça que fica
atrás da banca de jornal. Assim que comecei a caminhar na praça acenei para ela
de longe e conforme fui me aproximando arremessei despretensiosamente o cigarro
na lixeira. Nos cumprimentamos com um beijo tímido no rosto e eu quebrei o gelo
perguntando:
—Bruna, onde está afim de ir?
—Para mim tanto faz...
—Hum, conheço um lugar bem
diferente que costumo ir para pensar na vida...
—Pode ser — ela disse sorrindo com
curiosidade.
Seus cabelos caiam sobre seu corpo,
e sua blusa deixava seus ombros descobertos de uma forma leve. Antes que seu
corpo me distraísse ainda mais, chamei ela para comprarmos algumas coisas antes
de irmos ao local. Pegamos alguns pacotes de batatas e uma bebida qualquer que dividiríamos
sem copo.
Assim que chegamos, seus olhos
brilharem em tom de aprovação.
—Meu deus, que lugar é esse?
—Quando eu era mais novo eu andava
por aqui de bicicleta e um dia por curiosidade eu olhei o que tinha por trás do
muro e me deparei com essas grama rasteira e essas flores, isso sem falar na
vista que se tem da cidade.
—Queria congelar esse momento e
terminar as férias aqui, esses dias o Pedro tem sido um imbecil – ela soltou um
suspiro demorado e continuou – mas você não tem nada a ver com isso.
—Tudo bem, esses dias também não
tem sido fácil para mim.
—Ô, mais engraçado é que eu nem te
conheço direito e mesmo assim tenho confiança de conversar com você, estranho
não?
—Talvez.
Dizendo isso abri o pacote de
batata e após dar um gole na bebida passei para ela que antes de beber soltou
uma gargalhada pela situação engraçada de compartilharmos daquela forma.
—Sabe — disse entre uma pausa e
outra da bebida – estava pensando aqui as vezes nos entregamos a tantas coisas
banais e esquecemos do simples, como viver.
—Sim, por exemplo eu só estou com o
Pedro porque já estamos juntos a quase um ano, mas sei lá, ele quase não está
por aqui e mesmo quando está...
—O meu dilema são meus pais que
estão se separando e bagunçando toda minha vida, até fumar eu tô fumando. Não
acho que seja errado fumar e nem quero começar a falar um discurso
politicamente correto, só que também não quero ficar dependente de uma coisa
que só me satisfaz momentaneamente.
—Complicado, acho que o segredo é
tentar ficar calmo.
—O problema não é descobrir o
segredo mas conseguir manter ele sem que o mundo lhe roube.
Nesse momento paramos de olhar para
a cidade e viramos para nos olharmos, seus olhos castanhos eram tão sublimes e
seus lábios molhados pareciam ser iguais a uma bala de goma. De repente, minha
mão passou atrás de sua nuca trazendo ela para mais perto de mim, desviei uma
mecha do seu cabelo e deixei que nossos lábios se encontrassem como forma de
esquecer todos os problemas. No êxtase daquela noite eu percebi que precisava
dela, eu só não sabia que não seria tão simples assim...
Gabriel Bhering
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