FESTA DE PEÃO OU SOFRIMENTO DA BOIADA?
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| (Fabiana Fontes) |
O rodeio é uma prática que busca entreter milhares de pessoas, mas em contrapartida agride a dignidade dos animais. Em primeira instância os observadores não conseguem captar o sofrimento que os bois passam, voltando suas atenções para os piões que conseguem ficar mais tempo montados nos bichanos. Mas, após uma reflexão é possível ver que o boi não se debate simplesmente por ser nervoso, mas por estar se sentindo incomodado com alguma cinta que prende sobre suas virilhas.
A animação cinematográfica, O Touro Ferdinando (2018), lançada a pouco tempo mostra a vida de um touro que não tem a mínima vontade de participar de uma tourada, apesar de todos a sua volta pensarem o contrário. No decorrer do filme pode-se observar todas a injustiças que os animais passam e também concluir que a tourada se caracteriza como um ato totalmente desumano e covarde, sendo análogo a situação conflituosa que é o rodeio.
Apesar de todos aspectos negativos que envolvem o rodeio, essa prática carrega consigo uma tradição que pode se perder caso um dia o entretenimento venha a ser proibido. Inicialmente o rodeio não se passava de uma necessidade diária executada em áreas rurais para domar e capturar animais, sem o intuito de competição. Mas aos poucos, a disputa para ver quem é o melhor na montaria foi ganhando espaço e tomando conta dos Estados Unidos, chegando na década de 1940 em Barretos – SP, Brasil. Ou seja, apesar dos maus tratos, o rodeio é uma tradição muito enraizada na vida dos sertanejos e admiradores.
Os defensores do rodeio justificam que a pratica é uma forma de estender a vida do boi, que caso contrário estaria sendo servido de churrasco em diversas mesas brasileiras. Além disso argumentam que pode existir um rodeio sustentável, ou em outras palavras, um rodeio que não prejudique a saúde do animal. Mas diante dos intensos debates do boi é inegável que por mais cuidado que se possa ter, ele não esteja sentindo muita dor.
Portanto, confira a visão do Médico Veterinário Renato de Carvalho Lopes sobre o assunto, e se posicione diante do grande impasse, o rodeio é Festa de peão ou sofrimento da boiada?
Portanto, confira a visão do Médico Veterinário Renato de Carvalho Lopes sobre o assunto, e se posicione diante do grande impasse, o rodeio é Festa de peão ou sofrimento da boiada?
“Como veterinário, independente de profissão ou não, eu tenho certas dificuldades de aceitar algumas coisas com os animais. Um negócio que eu odeio é zoológico, eu tenho uma menininha de dois anos e a gente foi, e o mal-estar que eu sinto é muito grande, por mais que se fala que o animal está lá, sendo bem cuidado, tratado e alimentado, tem assistência veterinária, ele não deixa de estar fora do habitat, ele não evoluiu ali, né? Então independente de tudo tem um mal-estar presente, apesar de não ter nem uma ferida exposta, tem uma ferida interna, sabe?
As vezes tem certas opiniões que eu tenho um pouco de dificuldade de emitir, independente de como veterinário ou não. Algumas pessoas me questionam aqui em Brasília: “Mas, você é veterinário e não tem cachorro em casa? ” Bicho, eu moro em um apartamento de 80m², eu não posso nem falar, porque já trabalhei em clínica de pequenos animais, mas eu considero um mal-estar ao animal. É uma judiação ter que viver em 80m² , em chão cimentado, sem sol, sem poder explorar e caminhar, até porque os cães da natureza caminhavam quilômetros por dia, antes de evoluírem. Então assim, eu até tenho cachorro na casa do meu pai em Ponte Nova, afinal cachorro tem que ter espaço. Mas ainda tenho dificuldade de aceitar certas coisas.
Sobre rodeio, se pegarmos sua origem vamos encontrar fontes espanhola e americana, que diz ter nascido através de pessoas que lidam com esses animais e resolveram competir para ver quem fica mais tempo montado ou laçando os animais, então assim, era uma competição de coisas que acontece na vida no campo. Porque até mesmo na lida com os animais, é imprescindível, eu trabalho com grandes animais também, e é preciso laçar, fazer contenção, aplicar uma vacina. Até mesmo para lidar com um animal, você tem formas carinhosas e respeitosas, mas enfim, então o rodeio surge disso e a sociedade por receber público e dinheiro se apropria da prática. Mas o rodeio moderno eu tenho uma certa dificuldade de aceitar, algumas pessoas a favor dizem que temos que preservar a cultura e que o animal é bem cuidado, o sedém, aquela fivela que fica abaixo dos animais não incomoda e não gera ferida. Mas se pegarmos o sistema nervoso dos mamíferos superiores, observamos que é igual ao da gente e conseguimos observar um incomodo. Então assim, imagina você com uma cinta amarrada na barriga e alguém pulando em cima de você, é claro que existira um certo incomodo. E também se pegarmos o ambiente que ocorre, percebemos que não é propicio.
Mas como eu lhe disse eu acho que é importante conter, amarrar e lidar com os animais, isso é necessário, a gente escuta que os defensores de rodeio acham que é ridículo nossa opinião sobre ser contra enlaçar e montar os animais, mas em contrapartida matamos para comer e fazer churrasco. Claro que tem criadores e criadores, mas quando o animal é criado em um ambiente natural, de pastagem, explorando junto com o rebanho e manifestando suas características naturais, existe hoje através da legislação rigorosa, o abate humanitário, e outra evoluímos comendo carne, o ser humano precisa de carne. Então quem é vegano, por exemplo, tem extrema dificuldade de encontrar nutrientes em fonte vegetal, então eu sou carnívoro e não tenho problema nenhum nisso, mas acho que espetacular e ridicularizar animais não é minha praia.
Se um dia vai ser proibido o rodeio eu não sei, mas ainda sobre o zoológico eu tenho uma extrema dificuldade de aceitar, mas também não sei se deve ser proibido, pois existem alguns que servem de reabilitação de animais, que são encontrados feridos e machucados e passam um tempo ali até voltarem ao habitat natural, apesar que o conceito mesmo do zoológico não é bem esse, mas sim expor animais. Então, eu não gosto de ir, mas também não sei até que ponto proibir vai resolver alguma coisa também. Por exemplo, na Inglaterra tem um esquema de caça a raposas que é secular e foi proibido recentemente, e aqui no brasil estamos no caminho inverso, a gente vê posições políticas liberais e neoliberais extremista de direita, como o Bolsonaro, que para abarcar ainda mais a situação da população fala que vai aprovar caça discriminada aqui no Brasil.
Talvez pode ter ficado ambíguo, essa questão que eu quis abordar, mas eu acho que é importante a lida com os animais. Eu não sou hipócrita de achar que tudo que fazemos é maus tratos, mas eu também não acho legal ficar subindo em cima de um boi, com um monte de gente batendo palmas, música alta, luz e depois vem um artista e canta, eu acho chato, não é minha praia. Mas também não tenho problema de conviver com a diferença e achar que quem gosta, apesar de eu não gostar, estar errada. Se a pessoa acha que não está ferindo, é a opinião dela. Mas acho que temos que ver que tem um conteúdo a mais de bem-estar, os animais são sencientes, eles sabem que eles existem, o problema dos animais é que eles não têm expectativa futura, ou seja, se for dado boas condições para os animais viverem uma vida bem vivida que permita que eles expressem suas características naturais e evolutivas, não vejo nada de errado, por exemplo, em fazer um abate humanitário, mas isso é uma outra grande discussão. ”
Gabriel Bhering
Primeira Publicação: http://www.projetomural.com.br/2018/09/festa-de-piao-ou-sofrimento-da-boiada.html

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