MINHA ÚLTIMA CHANCE

(Rhuan Keller)



“Inspiração dos meus sonhos, não quero acordar
Quero ficar só contigo, não vou poder voar”

Há exatamente quatro dias atrás, eu fiquei sabendo da minha aprovação no curso de Artes plásticas que começa no segundo semestre. Quando o Ensino Médio acabou, ano passado, eu simplesmente não tinha a mínima noção do que eu queria fazer. Meus pais queriam que eu fizesse algum desses cursos tradicionais, tipo engenharia, sabe?
Mas, sei lá, isso nunca foi minha praia. Eu sempre quis trabalhar com algo que me desse prazer, então depois de bastante tempo pensando eu resolvi me aventurar nesse mundo das artes. No começo do ano eu não tinha certeza do que queria fazer, então por mais que tivesse uma nota legal, eu precisava colocar minha cabeça no lugar, ao invés de fazer uma escolha precipitada.
Depois de pensar e pesquisar bastante, cheguei à conclusão que esse é o curso ideal para mim. Bom, não sei se é o curso ideal para o meu bolso, mas e daí? Quem disse que eu não posso ser o novo Van Gogh? Assim que o Sisu abriu, agora no segundo semestre, coloquei minha nota, e bum, passei!
Meus pais não ficaram felizes e nem tristes, eles simplesmente começaram a organizar as coisas para minha mudança. Agora eles estão começando aceitar um pouco melhor essa ideia do filho deles ser um artista, ou um desorientado, como minha tia costuma dizer.
Ontem, enquanto terminava de organizar os documentos para a matrícula, vi um anúncio nas redes sociais, referente a quadrilha do IFMG, a escola onde eu fiz meu ensino médio. Em primeira instância descartei na hora a possibilidade de ir, afinal não estou muito no clima de quadrilha. Mas, quando pensa que não, chegou uma mensagem da minha amiga, Cláudia.

Benjamin, vamos à quadrilha do IF?”
“Não mesmo! Não estou afim de ver certas pessoas...”
“Ahhh! Para com isso, vai ser muito divertido, vamos, por favor?”
“Não sei não, vou ver e te falo...”

O meu ensino médio foi bem divertido de um modo geral, não tenho nada a queixar, só que ir a quadrilha é o mesmo que reviver tudo isso de novo. Ok, talvez esteja sendo um pouco dramático, mas sinceramente, não estou muito afim, ou melhor não estava.
Resolvi mandar uma mensagem para Cláudia falando que iria, afinal, mal também não iria fazer. Ela ficou animada, e falou que iriamos nos divertir muito pois até a banda Enigma estaria presente. Mandei uns emojis contentes, mesmo sem ser muito fã de sertanejo.
Combinei de encontrar com a Cláudia um pouco antes da entrada do instituto, ela como sempre se atrasou. Assim que ela chegou, cumprimentei-a, e senti uma nostalgia me invadir naquele momento, pois nosso reflexo na poça molhada não era de dois jovens com roupa xadrez, mas sim de dois jovens meio cabisbaixo com todas as pressões do colegial.
Caminhamos em direção ao local onde ocorreria a festa, e a cada passo que eu dava, um misto de alegria e tristeza se misturavam no meu coração. Alguns rostos conhecidos surgiam na escuridão da noite, alguns sorriam, e outros continuavam seus trajetos sem interferência.
—Oh, meu Deus! — uma das nossas professoras veio nos abraçar com um sorriso estonteante — estou morrendo de saudade de vocês!
—Oi, Soraya, também estamos com muita saudade!
—Eu só queria descobrir o seu segredo para ficar sempre mais nova — a Cláudia falou colocando a mão na cintura, com ar de curiosidade.
Assim que prosseguimos, depois de trocarmos uma conversa com a Soraya, eu vi ela. Eu vi a Bianca. Nem preciso falar que perdi o rumo, a noção de tempo, e até mesmo de espaço.
—Ei, Benjamin, você está bem? – a Cláudia, perguntou em um tom preocupado.
—Oi?
—Vamos! – ela disse me puxando.
Assim que retomei o ar, falei:
—Essa é minha última chance!
—Do que você está falando?
—Dela!
—Ela nem lembra que você existe, sério mesmo, que vamos recomeçar esse assunto? Estou morrendo de fome!
De repente, a Cláudia fixou o olhar em um ponto específico. Então percebi que era o João, seu ex. Eles namoraram dois anos, e infelizmente terminaram com o fim do colegial. Agora no meu caso é diferente, eu nunca namorei a Bianca, a não ser nos meus sonhos. Droga, por que meu Deus?
Essa é minha última chance de mudar essa história.
Conforme continuamos andando eu percebi que o IF, estava muito bem enfeitado, o clima realmente era de quadrilha, música para cá, comida pra lá, as bandeirolas balançando e o som comendo broca!
A Cláudia pegou um caldo e eu um cachorro quente, enquanto comíamos, encontramos algumas pessoas que conhecíamos, e trocamos umas ideias. De repente, foi anunciado a presença de um correio elegante.
Eu não vou fazer isso, eu não vou fazer isso, eu não vou fazer isso.
—Cláudia, o que você acha de eu mandar um bilhetinho para Bia?
—Coragem, porque noção não tem!
—Você escreve para mim?
—Benjamin, ela nem conhece sua letra!
—Sei lá, vai saber!
—Não me mete nisso!
—Por favor, Cláudia!

Bia, provavelmente você nem se lembra de mim, mas como seu eterno admirador, aqui estou eu de novo fazendo papel de bobo por você. Um beijo, princesa!

—Benjamin só um minutinho, vou ao banheiro.
—Ok — disse, indo comprar uma maçã do amor.
 Assim que terminei de pagar pela maçã do amor, o correio elegante parou ao meu lado, e me entregou um bilhetinho.
 Meu coração acelerou.

Oi, Ben! Você está lindo, e continua com esse seu jeito fofo de sempre. Um beijo!

 Ela me respondeu, uhulll! Eu só faltei sair pulando de tanta felicidade!
—Espere — Eu disse, antes que ele se fosse – Eu quero mandar mais um bilhetinho.
            —Para quem?
            —Ué, para mesma garota que me enviou esse.
            —Ok, ele disse me passando um coraçãozinho em branco.
—Você chegou na hora certa, Cláudia! Escreve aqui para mim?

Estarei te esperando na pista de dança, assim que a banda começar a tocar. Um beijo! P.S.: Não vejo a hora de te dar um beijo de verdade! <3

            Expliquei para a Cláudia, a resposta da Bia, e ela ficou feliz. Achei estranho, pois até agora há pouco, ela estava criticando essa minha paixão. De repente, ela passou um dedo nos lábios, como se estivesse disfarçando algo.
            —Ei, você beijou?
 —Pirou, Ben! Claro que não!
 —Você beijou, eu te conheço! Foi ele?
 —Benjamin, acho que a banda vai começar a tocar, você não tem um “encontro”? — ela disse fazendo aspas no ar.
 —Não ache que você se safou, depois quero saber tim-tim por tim-tim.
            Disse indo em direção a pista de dança, que estava começando a encher. Ao chegar lá entrei no meio da galera, totalmente perdido. Então, quando menos esperava esbarrei nela.
            —Oi, Bia! — disse cumprimentando ela com um beijinho de lado, sentindo meu rosto queimar.
            —Oi, Benjamin, tudo bem?
            —Tudo joia e você?
 —Tudo bem também — ela disse sorrindo.
 —Faz tanto tempo desde a última vez que conversamos, olha só pra você, continua ainda mais linda!
 —Obrigada — ela disse sem graça — você também está um gatinho! — Ela comentou rindo.
 —Perto de você continuo sendo apenas um mero mortal.
 —Para! — Ela disse me empurrando de leve, e ao sentir o impacto do choque, se concentrou em meu olhar.
 —Eu acho que sempre vou ser apaixonado por você – disse, segurando seu queixo, e modelando o encaixe ideal para o nosso beijo, que aconteceu da forma mais apaixonante e natural possível.
            Enquanto aproveitava cada segundo daquele momento, alguém puxou o braço dela, fazendo com que ela fosse parar no chão.
            —Não acredito que você teve coragem de me mandar recadinho, e ficar com ela! Você é ridículo — a Catarina disse perplexa.
 Fiquei totalmente sem entender o que estava acontecendo. A Catarina é uma amiga minha, que também se formou ano passado, só que em outra turma, sempre tivemos envoltos por um clima, mas não imaginava que ela fosse querer algo além da amizade.
—Catarina, eu não te mandei nenhum recado, acho que houve um mal entendido! — disse puxando a Bianca pela mão, que estava jogada no chão.
            —Você tem noção do que acabou de falar?
 —Sim, eu não te mandei nenhum recado.
 —Você é ridículo mesmo — ela falou com uma risada irônica, e do nada puxou os fios que estavam conectados nos aparelhos de som, fazendo a Banda Enigma parar, afinal o som parou de eclodir, deixando um silêncio macabro invadir o ambiente.
            —Eu quero ver você falar na frente de todo mundo que você não me mandou nada? — ela disse gritando — Benjamin, eu não estou louca, não! Inclusive, o seu recado tá aqui — ela disse puxando um bilhetinho da calça.
            Naquele momento percebi que a escola tinha parado para ver a confusão. Meu Deus, que vergonha!
            —É briga! — A galera gritava, enquanto um círculo de pessoas se formava, nos deixando no meio como atores amadores.
            —Eu simplesmente não sei como isso foi parar em suas mãos — disse com sinceridade.
            Mais ou menos nesse momento, a Bia, saiu correndo, empurrando as pessoas, fugindo daquela confusão.
            —Correio elegante, cadê você? — a Catarina disse gritando e procurando o menino com o olhar – se alguém o conhecer, chama ele, por favor, ele é prova viva, que não estou mentindo!
 Depois de um tempo o menino apareceu todo envergonhado, e a Catarina não deu nem tempo dele respirar e já foi perguntando:
—Quem me enviou esse bilhete, você lembra? – ela perguntou, entregando o papelzinho ao menino.
            —Lembro sim, foi ele — o garoto disse apontando para mim.
            —Uhhhhhh — a galera gritava em tom de vaia.
           —Ué, mas eu pedi para você entregar para a garota que me enviou o bilhetinho.
            —Foi exatamente o que fiz.
 Meu Deus! Então quer dizer que o bilhetinho que eu recebi não era da Bianca, mas da Catarina? Isso explica tudo! Quando eu escrevi o segundo bilhete eu pedi para que o garoto enviasse para a garota que me mandou, e ele realmente fez o que eu pedi, só que eu achava que essa garota era a Bianca.
 Nisso, quando eu encontrei com a Bia, imaginei que ela tivesse recebido o bilhete, mas na verdade ela só estava na pista por coincidência, pois quem recebeu mesmo foi a Catarina, que ao me encontrar, deu de cara com eu beijando a Bianca.
 Nossa senhora, que confusão!
Esse ano, Santo Antônio, está mais do que caridoso comigo!
Tentei explicar brevemente o que havia ocorrido, e assim que terminei a Catarina falou com deboche:
—Você é um bocó mesmo em acreditar que essa menina ia te mandar recadinho, acorda Bem, vida real te chamando!
Nesse momento eu dei um sobressalto da cama, e percebi que tudo não tinha se passado de um sonho, ou melhor de um pesadelo! Só espero que amanhã essa história não se repita! Ô Santo Antônio, pega leve aí!

“Como num filme, no final tudo vai dar certo
Quem foi que disse que pra tá junto precisa tá perto?

Pense em mim, que eu tô pensando em você
E me diz o que eu quero te dizer”


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