PARA FORA DO NINHO
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| (Fabiana Fontes) |
Passei a mão na minha calça jeans, tentando limpar o suor que se formava na palma das minhas mãos. Retirei do bolso um pequeno espelho e tentei verificar a minha aparência, respirei fundo e tentei ficar calma. Um frio gostoso cortava a minha espinha, enquanto meus cabelos ficavam um pouco bagunçados com a situação embaraçosa. Chegando na secretária que cuidava dos calouros, a recepcionista foi muito atenciosa:
—Olá, em que posso ajudar? –
Perguntou ela mostrando dentes branquinhos, enquanto ajeitava os óculos.
—Olá, eu vim para a entrevista para
vaga no alojamento.
—Qual o seu nome, por gentileza?
—Carla Mires.
—Prazer, Carla. Só um momento que eu
levo você até os quartos.
Fiquei olhando para minha bolsa que
continha algumas peças de roupas, para os primeiros dias caso fosse aceita. A
secretária com um aspecto preocupada, perguntou:
—Querida, você é daqui de perto?
—Bom, mais ou menos. Sou de uma
cidade vizinha, mas prefiro viver por completo a faculdade.
—Ótimo pensamento, minha filha. Mas,
a vida universitária contém muitos perigos é preciso ter juízo.
Desde quando bati o pé que iria morar
na universidade meus pais ficaram um pouco com pé atrás. Mas depois de mostrar
que seria o melhor para mim, eles acabaram concordando, e vendo que seria muito
complicado eu ir e voltar. As recomendações foram imensas.
—Sim, sim – disse até um pouco
assustada, por até a própria secretária dizer isso.
—Mas, você vai se sair bem. Dá para
ver em seus olhos, Carla.
Assim que comecei a bater de porta em
porta, eu percebi o quão difícil seria viver longe dos meus pais. Ao mesmo
tempo que me instigava me deixava preocupada. A primeira porta aberta foi de
uma garota que fez as perguntas como se fosse uma máquina. Respondi, a todas as
perguntas animada pensando nas noites que passaríamos estudando juntas. Mas
ela, não tinha expressão física, literalmente falando. Ainda bem que passou
rápido.
A próxima porta foi de uma garota que
estava ouvindo Bon Jovi, enquanto segurava um cigarro de palha e fazia
perguntas com pouca coerência. De início achei ela divertida, mas aos poucos
fui ficando assustada com a sua maresia fora do normal.
Através da terceira porta saiu uma
garota com o cabelo preso, enquanto segurava uma prancheta em um tom organizado
e humilde. Ela perguntou tudo com muita atenção e se mostrou muito atenciosa.
Dentro do seu quarto exalava um cheiro de flores que estavam murchando e tempero de miojo que está sendo cozido no fogo. Não sei porque, mas eu senti
que era ali. Uma sintonia, que estava me animando. Só restava eu ser aceita.
Depois desses três alojamentos que
estavam oferecendo uma vaga a moça que estava me acompanhando nas entrevistas,
perguntou qual deles era a minha preferência caso eu fosse aceita. Não, hesitei
muito e disse que o último. Ela mostrou novamente os dentes branquinhos como
mãe orgulhosa quando vê o filho falar pela primeira vez.
Assim que eu preenchi um formulário,
fui comer um lanche e dá uma volta – sozinha – pelos arredores da UFV, que
desde bem novinha faziam meus olhos brilharem. A moça disse que era para eu
voltar mais a tarde que o resultado estaria pronto.
No meio do caminho de volta para o
alojamento, tropecei em uma pedra. Quando o meu rosto já encontrava o chão, as
mãos dele seguraram meus braços. Com um olhar tímido, ele perguntou:
—Tudo bem, menina?
—T-tudo – disse engasgada com a
situação – desculpas.
—Agora que te salvei do chão, será
que posso te convidar para o evento calourada ano 2000?
—Acho que sim – disse soltando um
sorriso amarelo.
—19h na república, só solteiros.
Meu rosto ruborizou com o nome da
republica dita por ele, e eu me senti uma adolescente de doze anos de idade.
Ele soltou um sorrisinho meio debochado que foi como uma porrada no meu estômago,
e para completar antes que eu pudesse me recompor ele me lascou um beijo na
bochecha que me destruiu por completo. Droga, eu vou ser a pior caloura de toda
essa universidade, pensei comigo.
—Te encontro lá — disse ele por fim
dando uma piscadinha e voltando para o seu trajeto, antes que eu pudesse dizer
algo.
Quando retornei ao alojamento, a
secretária me informou que eu tinha sido aprovada pelo quarto dois e três, mas
como eu já tinha informado que queria o três ela já tinha me inscrito nele. Meu
coração deu até um saltinho de felicidade, enquanto me encaminhava para lá.
Assim que bati na porta a garota toda
séria se desmontou dizendo:
—Pronta, para viver os melhores anos
da sua vida?
E foi naquele momento que eu percebi
que tinha feito a melhor escolha, e que estava no melhor lugar, no melhor
momento, no melhor dia. Foi naquela hora que eu percebi que realmente seria
muito feliz.
Gabriel Bhering
Primeira Publicação: http://www.projetomural.com.br/2018/05/para-fora-do-ninho.html

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