PRISIONEIRAS
NOVA
OBRA DE DRAUZIO VARELLA É ANÁLOGA AO SISTEMA PENITENCIÁRIO FEMININO DE PONTE
NOVA
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| (Fabiana Fontes) |
O médico e escritor Drauzio Varella
publicou em 2017 o seu último livro da trilogia Estação Carandiru, intitulado
Prisioneiras, que se volta justamente para o universo penitenciário feminino.
Através das suas consultas voluntárias na Penitenciaria feminina da capital há
mais de uma década, ele conseguiu agrupar diversos recortes sociais em
capítulos que transformam sua nova obra em um registro histórico do nosso país.
Em outras palavras, através da leitura do livro é possível compreender um pouco
melhor como funciona a vida de mais de 43,2 mil mulheres que vivem atrás das
grades.
A maioria das pessoas imaginam que a
vida carcerária se restringe a ver o sol nascendo quadrado, mas essa visão é
tão poetizada que chega a ser equivocada. As cadeias masculinas e femininas, em
sua maioria, carregam um número muito grande de prisioneiros o que faz com que
sua principal função, restaurar os cidadãos, seja ineficiente. Através do livro
"Prisioneiras", é possível observar que o sistema carcerário
brasileiro é tão complexo que chega a ser uma cidade extra em um determinado
Estado.
Seja fazendo crochê, faxina, comida,
manutenção, arrumando cabelo as prisioneiras não deixam de tirar o seu
sustento, não através de cédulas ou moedas monetárias brasileiras pois não é
permitido, mas através de maços de cigarros Derby que equivalem em torno de RS
7,OO por unidade (2017). Por exemplo, uma cabelereira que faz alisamento
arrecada cinco maços de Derby, a luzes são em torno de vinte a trinta maços.
Embora o pagamento tradicional seja maço de cigarro muitas preferem o depósito
na conta bancaria pelos familiares de seus clientes. De acordo com uma
cabelereira chamada, Tonica, descrita por Dráuzio, sua arrecadação mensal gira
em torno de 3 mil a 3500 reais por mês, uma quantia bem alta para uma
presa.
Apesar do trabalho informal em
penitenciarias femininas ser muito praticado muitas preferem a segurança da
carteira assinada apesar do percentual descontado para o INSS. Como uma forma
de regeneração dos presos muitas firmas se tornaram parceiras de penitenciarias
que cobram uma mão de obra mais barata mais ainda assim eficaz. Além do fato do
sistema judiciário considerar a cada três dias trabalhados um dia a menos a ser
cumprido atrás das grades. As prisioneiras que fazem parte dessas firmas
internas arrecadam mensalmente em torno de um salário mínimo por mês que sofrem
alguns descontos e são destinados a uma poupança que só pode ser movimentada
quando ganharem a liberdade.
O primeiro livro "Estação
Carandiru" mostra com exatidão que o número de visitas e preocupação que
os homens presos recebem é muito maior quando comparado com as mulheres. Como
se elas estivessem em um ambiente inadequado e os homens não, essa concepção
mostra claramente a visão machista e desigual entre gêneros que o Brasil
carrega. Uma das formas que as mulheres encontram de lidar com essa
discrepância é a relação homossexual que estabelecem com suas colegas.
De acordo com a experiência do
Dráuzio e os relatos das pacientes em seus atendimentos voluntários é possível
perceber que a maioria das mulheres só estabelecem relações sexuais com
indivíduos do mesmo sexo como uma forma de satisfazerem suas necessidades
fisiológicas e carências, sendo poucas nas realidades sapatão original. A Dra.
Maria da Penha que dirigiu cadeias femininas por mais de três décadas avalia as
relações homossexuais como uma forma de manter a paz nas prisões femininas, se
não fossem as crises de ciúmes doentio que levam a diversos conflitos internos.
Drauzio através de suas consultas
sempre ficou sabendo um pouco mais sobre a vida das pacientes e o motivo de
estarem presas. No livro é descrito com detalhes histórias especificas de
várias mulheres, que na maioria dos casos são pobres, negras e de periferias.
Além do mais costumam ter famílias desestruturadas e estarem envolvidas com
estupros. Através dessas características que acompanham muitas pessoas da nossa
sociedade é difícil imaginar um futuro promissor longe do universo
criminal.
A maioria dos casos de prisão no
Brasil está relacionado com o tráfico que é uma solução para muitas conseguirem
manter relacionamentos afetivos com usuários, ladrões e traficantes ou como
parte da estratégia para manter a família viva em meio ao caos da crise
contemporânea. De acordo com o analise que Drauzio Varella fez desde o período
do Carandiru, o inchaço nas penitenciarias do Brasil tanto masculino como
feminino está muito ligado com a restrição que o país faz as drogas. Por
exemplo, se a maconha deixasse de ser ilegal o número de biqueiras decairia
diminuindo o número do tráfico, consecutivamente o número de presos reduziria
absurdamente.
“Quanto tempo será necessário para
nos convencermos de que essa legislação nos conduziu ao pior dos mundos:
roubos, assassinatos, quadrilhas em disputa permanente pelas rotas de tráfico e
pontos de venda, tiroteios, mortes de inocentes, cracolândias, corrupção da
polícia, do judiciário e do legislativo, sem impedir que as drogas cheguem as
mãos do usuário? Quanto dinheiro investido em repressão policial, construção e
manutenção de presídios para resultados tão pífios? ”
Argumentou Varella acima, nas ultimas
páginas de fechamento de sua trilogia, em busca de uma solução para o problema
que juntamente com a Medicina ele vem estudando há mais de décadas. Apesar da
sua visão ser voltada para os sistemas penitenciários das capitais, podemos
observar através da entrevista abaixo com o agente penitenciário e líder do
canil Leonardo Victor Gomes que a situação que se passa em Ponte Nova, cidade
mineira da Zona da Mata, não chega a ser muito diferente das ocorridas nas
grandes capitais.
Quais são os principais motivos que
levam mulheres a serem presas em Ponte nova?
Principalmente, tráfico.
Existem firmas com parceria com
o presídio feminino de Ponte Nova com o intuito decontribuir para a
reintegração das mulheres na sociedade?
Existe sim, como por exemplo a Plastnova, que contrata em torno de quinze mulheres, quando estão próximas a saírem o presídio possibilita essa oportunidade.
Existe sim, como por exemplo a Plastnova, que contrata em torno de quinze mulheres, quando estão próximas a saírem o presídio possibilita essa oportunidade.
Assim como nos grandes presídios, aqui
em Ponte Nova também ocorre trabalhos informais dentro do ambiente
penitenciário?
Ocorrem sim. Elas fazem,
artesanato. Como por exemplo boneca, passarela de mesa dentre outros. E os
familiares pegam para vender nos dias de visitas. Já os homens costumam fazer
jarros e maquetes.
O ambiente carcerário proíbe a
circulação monetária, então, muitas prisioneiras acabam utilizando maços de
cigarro como uma forma alternativa de trocar bens ou serviços. Isso é factível
em Ponte Nova?
Aqui em Ponte Nova não é
permitido cigarro nem dinheiro. Mas tudo vira dinheiro. Por exemplo, para
limpar uma cela troca-se pão e doce, ficando seis dias sem comer tal alimento.
Uma das coisas que mais valem dinheiro na cadeia daqui é caneta e costuma ter muita
circulação.
Outros produtos bastante trocados são sabonete e biscoito. Em dias de visitas com a família as presidiárias costumam trocar paçocas.
Outros produtos bastante trocados são sabonete e biscoito. Em dias de visitas com a família as presidiárias costumam trocar paçocas.
O número de visitas que a penitenciaria
feminina recebe realmente é menor quando comparada aos presídios masculinos?
O número de visitas de mulheres
é muito pequeno, costuma ser mais mãe e filho. O companheiro não costuma
aparecer, simplesmente abonadona. A mulher vai por causa do parceiro e fica sem
ele.
Em grandes penitenciarias femininas é
muito comum ocorrer relações afetivas ente prisioneiras, isso se aplica em
Ponte Nova?
Sim, tem muitas mulheres que
acabam se relacionando de acordo com o momento. Quando ocorrem separação de
celas, ouço elas gritando “Eu te amo meu amor, fica comigo”
Existe alguma característica em
particular na parte carcerária feminina?
A presa diferente dos homens
tem direito ao dia da beleza, então, além do trabalho, estudo e lazer que estão
na sua rotina elas tem um período das 16h às 18h para fazer unhas, pintar o
cabelo e se maquiarem, com o intuito de valorizarem a parte feminina. Outra
diferença que pode ser facilmente observada é o fato das paredes de suas celas
serem rosas, diferente da dos homens
As mulheres no período gravidez ou vão para um local especifico ou então esperam o bebe nascer e veem a possibilidade ficar no semi-aberto por um curto período. Essa decisão varia muito de acordo com o judiciário, houve uma situação em que a mulher aqui em ponte nova amamentou seu filho por um longo período devido a avó que ficou com a guarda leva-lo até a mãe todos os dias.
As mulheres no período gravidez ou vão para um local especifico ou então esperam o bebe nascer e veem a possibilidade ficar no semi-aberto por um curto período. Essa decisão varia muito de acordo com o judiciário, houve uma situação em que a mulher aqui em ponte nova amamentou seu filho por um longo período devido a avó que ficou com a guarda leva-lo até a mãe todos os dias.
Muitos estudiosos do sistema
carcerário brasileiro, como por exemplo, Drauzio Varella acreditam na
necessidade de uma reforma no ambiente penitenciário e as causas legislativas
que levam ao inchaço desse local, qual a sua visão sobre essa situação?
O sistema prisional de Ponte
Nova do governo de Pimentel para cá deu uma piorada, faltam recursos. Ao meu
ver a forma como o presidio está hoje tem muita a ver com a educação que as
famílias passam aos seus filhos, depois que está atrás das grades é difícil
consertar.
O auxilio reclusão é um projeto que eu sou a favor e muitos descordam. Imagine uma avó com cinco netos para criar devido a filha estar presa, não é uma situação fácil. Então esse auxilio que é proporcional ao último salário do presidiário serve como uma forma de ajuda e também para evitar futuros envolvimento com o crime.
O auxilio reclusão é um projeto que eu sou a favor e muitos descordam. Imagine uma avó com cinco netos para criar devido a filha estar presa, não é uma situação fácil. Então esse auxilio que é proporcional ao último salário do presidiário serve como uma forma de ajuda e também para evitar futuros envolvimento com o crime.
Gabriel Bhering

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