RETROCESSO - PARTE I
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| (Fabiana Fontes) |
Enquanto
vestia o uniforme branco e colocava a saia de tecido largo minha mãe pedia para
que eu me apresasse se não quisesse receber um grande castigo da escola. Meus
cabelos estavam presos em um rabo de cavalo intacto conforme propunha as novas
normas da instituição e meu rosto não tinha nem resquício de maquiagem. Meu pai
já engravatado me esperava na porta com um sorriso metálico, assim que saímos
percebi que a rua estava completamente cheia de militares.
Ao
longe avistei uma mulher de cabelos louros que estava sendo interrogada por um
policial de aspecto severo, provavelmente pelo comprimento de suas vestes. Meu
pai ligou o rádio buscando tentar espantar a tensão do momento, mas eu não fui
capaz de ignorar e questionei:
—Onde
isso vai parar?
Ele
apenas me olhou, tentou pronunciar uma palavra, mas não foi capaz. Desde que o
Brasil foi assumido por esse novo presidente, tudo mudou. Após dois meses de
mandato ele outorgou a constituição conhecida como “Constituição da Moral
Conservadora”, onde as pessoas foram ajustadas. A liberdade de expressão se
extinguiu, os direitos e deveres da constituição cidadã desapareceram como se
nunca tivessem existidos. Em outras palavras, a Ditadura recomeçou, depois de
décadas, levando a nação ao retrocesso.
Assim
que cheguei no portão do colégio passei por um detector de aparelhos
eletrônicos. Ao entrar na sala todas as meninas estavam sentadas
comportadamente, exceto Janaina, minha melhor amiga desde antes do pós-caos.
Ela estava sentada em cima da mesa com os pés cruzados, passando a mãos sobre
seus cabelos curtinhos que davam a ela um ar de rebelde. Ao me aproximar ela
sorriu cochichando “Até que enfim chegou uma garota não alienada nessa turma”.
Apesar
da maioria das escolas ainda não ter separado meninos de meninas, as turmas de
meninos são só de meninos e vice-versa. Assim que Dona Célia chegou com os
óculos escorregando pelo nariz ela disse para nós duas que estávamos em pé:
—As
duas mocinhas vão fazer a gentileza de sentar? Ou será que preciso chamar o
Diretor?
E
sem dizer mais nenhuma palavra começou a encher o quadro com expressões
matemáticas. Enquanto a aula demorava a passar, um bilhetinho da Janaina
aterrissou na minha mesa.
Malu,
Hoje vai ter movimento do
#SemOpressão, eu trouxe uma máscara para você, e aí topa?
P.S.: Impressão minha ou parece
que a letra da Dona Célia foi possuída por um alienígena.
Assim
que terminei de ler soltei uma gargalhada abafada que fez a professora virar
para trás em busca de tal atrevimento, apenas disfarcei enquanto respondia a
Janaina.
Você sabe que eu sou meio
medrosa com essas coisas, mesmo com o disfarce pode aparecer algum militar e
acabar com nossas vidas.
Vou pensar, não quero te deixar
na mão!
Agora deixa eu voltar para essa
droga de cálculo :/
Após
a aula de matemática tivemos português que apesar de ser uma matéria bem
expositiva, era ministrada por uma professora que apesar de não expor suas
ideias políticas parecia ser mais consciente.
Quando
o sinal tocou para o recreio meu coração deu um pulinho. A Janaina me seguiu
com aquele olhar de reprovação dela para o meu amor platônico. Ele é da
terceira série, alto, sério e meio misterioso. Tem um ar alternativo que mesmo
com o uniforme escolar eu consigo captar. Assim que desço as escadas ele me
olha, desvia, olha de novo e segue em frente. Sempre assim. Nunca trocamos
nenhum “oi”, e eu consigo imaginar ele comigo um dia quando o sol voltar a
iluminar.
Janaina
lendo meus pensamentos disse:
—Menina,
você tem que parar com isso! Ele nem te conhece, aposto que se não tivéssemos
passando por essa bendita ditadura você nem perceberia esse cara, afinal, eu te
arrastaria para balada toda noite.
—Você
acha mesmo que meus pais do jeito que eles são deixariam eu pisar fora de casa
para ir em balada?
—Eu
te sequestraria, mas você iria. Por falar em balada, ouvi um comentário que
rola umas festinhas bem descoladas em um bairro afastado da cidade.
—Essas
festas nunca tem um desfecho legal, a nova constituição proíbe eventos após às
10:30h, se eles descobrirem essa galera está ferrada!
—Malu!
Você está parecendo minha mãe falando, cuidado para não ficar alienada também!
—Janaina,
eu não estou dizendo que concordo com esse novo sistema, mas se eu não o
obedecer minhas chances são extremamente reduzidas de sobrevivência.
Assim
que a aula recomeçou, fomos analisar algumas obras clássicas. Desde que a
Ditadura voltou a maioria dos docentes da escola são professores mais velhos,
justamente para não dar margem para a reflexão das matérias. Sorte mesmo é da
minha prima que foi para o Canadá assim que o caos começou, mas agora até para
sair do Brasil está complicado, mesmo para quem tem muita grana para começar
tudo do zero.
Quando
esse ditador se candidatou a presidência da república eu tentei convencer os
meus pais que ele não era uma boa opção, mas não fui ouvida. Meu pai falou que
o Brasil precisava de um homem de moral, e minha mãe, também desanimada com a
política, apenas concordava com meu pai. Assim que a legislação mudou, o
salário da minha mãe reduziu (conforme a defesa do novo presidente que mulheres
são inferiores), a liberdade de expressão ao vivo ou em redes sociais
reduziram, pois quem desrespeita a moral proposta em qualquer meio é caçado,
minha tia mesmo foi presa por defender o direito da comunidade LGBT, que
sobrevive escondida e calada.
Fico
imaginando que se alguém do futuro me contasse isso antes do mandado desse
ditador, provavelmente eu começaria a rir com deboche, afinal, jamais imaginei
que em pleno XXI que tais barbaridades pudessem ocorrer. Atualmente, meu pai se
arrependeu muito, ele diz que não tinha dimensão que isso pudesse ocorrer,
minha mãe tem o mesmo raciocínio, assim como muitos outros brasileiros que
resolveram votar nele.
Os
meus pensamentos estavam perdidos no caos quando a professora perguntou me
despertando do devaneio:
—Malu,
como o ufanismo romântico presente em obras de autores como José de Alencar
ainda estão presentes na sociedade brasileira?
As
meninas que sentavam nas primeiras carteiras e pareciam ser fruto da ditadura
devido se portarem como uma pessoa que parecia gostar do período em que
vivemos, se viraram e me olharam com ar de expectativa. Janaina que senta ao
meu lado, revirou os olhos para elas e nesse meio tempo eu elaborei uma
resposta que dizia tudo o que eu estava pensando momento antes da pergunta.
—Vivemos
em um período onde o militarismo tomou conta da sociedade, vivemos em um
período onde responder essa pergunta em voz alta é correr risco, vivemos em um
período onde ser padronizado é a única opção, vivemos em um período onde o
nacionalismo extremamente dogmático e ufanista cobre nossa visão. Portanto,
concluímos que essa característica do movimento romântico ainda está presente,
como uma forma de negar a verdadeira verdade.
As
meninas que sentavam na frente me olharam com uma expressão confusa, a professora
sorriu e disse “obrigada”. Janaina me olhou com admiração e bateu palminhas que
não tinham som. Se por acaso alguém da coordenação ouvisse essa resposta eu
estaria frita. Às vezes eu consigo ver pelo olhar da professora Clarissa de
língua portuguesa como ela quer pegar o apagador do quadro e sair para rua em
protesto, mas no mesmo instante esse olhar some e ela volta a falar
metodicamente sobre as vantagens da ufania como uma forma de amenizar o impacto
da minha resposta, nos olhares de algumas meninas que parecem ter captado o que
eu queria falar.
A
última aula foi de Moral a nova matéria obrigatória em todas escolas do Brasil,
ministrada no meu colégio pelo Tenente Maxiliano que extremamente machista
argumentava a importância de cumprirmos o dever e nos casarmos, afinal,
conforme ele, mulher solteira não tem serventia.
Assim
que passou todo aquele discurso dele que eu sobrevivi escrevendo no meu caderno
alguns trechos de músicas que foram banidas, a Janaina me chamou para almoçar
na casa dela para depois irmos para manifestação. Por mais que eu quisesse
dizer não, eu não podia, eu precisava fazer alguma coisa. Então assim que
cheguei na casa dela telefonei para os meus pais dizendo que estava lá, eles
não gostavam muito da companhia dela, mas sabiam que a família dela era de
respeito. Os pais da Janaina têm um negócio aqui no Brasil por isso não se
mudaram ainda para o exterior, porque assim como a filha eles não suportam a
ditadura.
A
única pessoa que estava na casa dela era a empregada então discutimos
livremente como seria a manifestação.
—Malu,
como você nunca foi em nenhum movimento vou te explicar tudo. Primeiramente
você precisa colocar a máscara preta que esconde seu rosto e seus cabelos, e
também uma roupa escura, fica tranquila eu te empresto. O movimento começa em
um lugar afastado e aos poucos vamos aproximando da praça central. Todos nós
colocamos um minúsculo microfone portátil que eleva nossa voz, as
reivindicações são sobre direito de expressão, direito da igualdade de gênero,
entre outros. Então gritamos o máximo que podemos e assim que os militares nos
detectam damos um jeito de meter o pé, entendeu?
—Como
assim meter o pé? A galera corre?
—Bom,
mais ou menos — respondeu ela sorrindo — a galera que tem moto dá carona, uns
se escondem, outros simplesmente correm.
—Ai,
fiquei com medo, e se eu não conseguir?
—Eu
te ajudo, a primeira vez que comecei a me envolver no movimento também fiquei
extremamente preocupada. Conheço uns garotos que tem moto e provavelmente eles
dão uma carona. Ou então, também podemos esconder em algum canto, é só manter a
calma.
Olhei
para ela apreensiva, mas era tarde para desistir. Descemos para área de lazer
do prédio dela e trocamos de roupa no banheiro que era do salão de festas para
empregada não desconfiar. As máscaras, só colocamos quando já estávamos nos
aproximando do local de encontro. Assim que a galera juntou meu coração começou
a bater mais forte como se eu pudesse salvar o mundo. Respirei fundo e
começamos a caminhar. Um dos líderes do movimento entregou um panfleto onde
estava a pauta de discussão e também trajeto. O primeiro assunto era “Liberdade
de expressão”
Gritávamos,
parávamos as pessoas na rua, incentivávamos, entregávamos panfletos, e
gritávamos mais um pouco. As pessoas quando nos viam ficavam animadas, outras
assustadas. Mas o importante é que todos observavam e assim, aos poucos a
mobilização acontecia.
Quando
nos aproximamos da praça tudo parecia relativamente calmo, algumas pessoas
tiravam fotos de nós, outras se aproximavam e pareciam querer contribuir,
outras se afastavam desesperadamente. Não demorou muito para que os militares
se aproximassem. No mesmo instante minhas pernas bambearam e apesar de estar me
sentindo muito útil eu tive vontade de não ter me arriscado assim. Tentando não
me desesperar tentei encontrar a Janaina que fez sinal para que eu subisse em
uma moto, fiz sem questionar a sua ordem e no mesmo instante me assustei com
aquele perfume suave que eu reconheceria de longe. Era ele. O garoto da
escola...
—Oi
— ele disse com sua voz grossa – você é nova por aqui, certo?
—Sim
— disse ficando mais nervosa ainda, e esquecendo por um instante o que estava
acontecendo. Como não tinha percebido ele antes? Provavelmente pela quantidade
de pessoas que estavam envolvidas no protesto.
Ele
acelerou a moto e tentou sair da praça, mas ao fazer a curva só senti a moto
derrapando e meu corpo sendo projetada para a rua, em outras palavras eu saí rolando
em meio ao asfalto que esfolou meu braço e provocou uma grande ferida no meu
rosto que mesmo estando com a máscara não escapou do acidente.
Minhas
vistas escureceram devido a pancada inesperada mais ainda assim consegui
perceber quando ele suavemente tocou meu rosto, olhando fixamente para os meus
olhos perguntou:
—Está
tudo bem? Ei, eu te conheço — disse ele, tirando minha máscara — você estuda lá
na escola, certo?
Antes
que eu pudesse responder, dois militares se aproximaram e começaram a esmurrar
um porrete em nossos corpos e nos colocaram na parte de trás do carro nos
levando para o xadrez. Comecei a chorar e a soluçar desenfreadamente, enquanto
o Luka passava as mãos nos meus cabelos e pedia para que eu me acalmasse. Se em
qualquer outro momento me falassem que eu ficaria espremida com ele em um porta
malas eu provavelmente diria que ficaria sem fôlego e expressão, só que nunca
imaginei que seria dessa forma.
Olhando
ele mais de perto percebi como seu ar alternativo se confirmava. De longe
parecia ser durão e misterioso, mas de perto esse jeito dele se desmanchava e
ele ficava ainda mais lindo. Respirei fundo tentando não me parecer patética
nesse momento. Percebi que os olhos deles também estava meio marejados, afinal,
não é todo dia que você está indo para cadeia.
O
trajeto passou rápido, não trocamos muitas palavras e eu tentei o máximo que
consegui disfarçar os meus olhares, mas acho que não fui muito bem-sucedida.
Que azar o meu! Nunca troquei nem um “a”, com o garoto que eu gosto, quando
isso acontece estamos indo para prisão. Se não fosse trágico era poético.
Assim
que entrei na delegacia arrastada por um policial, e o Luka por outro meu choro
voltou, só nesse momento que eu lembrei que meu pai é delegado – parece que o
tombo não me fez bem ou então foi a proximidade com o Luka que me deixou meio
esquecida – quando entramos na sala dele, o seu olhar desviou do papel que
estava preenchendo e ele se assustou.
—Filha
o que você está fazendo aqui?
Antes
que eu pudesse pronunciar qualquer palavra, ele se levantou da cadeira e foi
verificar meus machucados extremamente preocupado.
—Esses
dois pivetes – disse o policial que estava segurando meu braço – foram
encontrados manifestando na praça!
Comecei
a soluçar me sentindo ainda mais culpada, o Luka só olhava para o chão
cabisbaixo. Enquanto o escrivão anotava tudo que o policial relatava o meu pai
passava a mão no meu rosto com extremo desespero. Ao final do relato o escrivão
argumentou:
—Seu
Delegado por serem menores de idade, prisão de três a seis meses, caso
contrário a pena poderia ser bem, bem maior.
Antes
que eu pudesse questionar, me recordei da redução da maioridade penal – uma das
medidas da nova constituição. Quando o presidente se candidatou eu fiquei
extremamente indignada com ele por ter proposto a redução da maioridade, afinal
nem todos têm a mesma formação e oportunidades e uma série de outros fatores.
Mas meu pai na época das eleições apenas dizia: “Lugar de bandido é na cadeia”.
Quando
meu pai assentiu para o escrivão, confirmando que ficaríamos presos, o policial
me levou em direção as grades. Meu pai disse ao fundo, tentando abafar em vão
um choro:
—Desculpa,
minha filha!
Nesse momento eu percebi que quando meu pai votou para aquele homem ditador, machista, homofóbico, em outras palavras um fascista, ele também estava votando para me colocar na prisão, mesmo sem perceber, ele estava aprisionando meu futuro!
Gabriel Bhering

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