SORTE NO JOGO, AZAR NO AMOR
Lembro de uma tarde que o Luquinhas
e outros moleques gritaram “E aí camisa 10, vamos jogar?”, não demorei muito
para comunicar a minha mãe, pegar a chave e sair até com os chinelos trocados.
Assim que eu cheguei na calçada eles perguntaram se eu queria dividir um litro
de tubaína da venda do seu zé, topei sem pensar duas vezes. Então começamos a
partida. “Drible no Robinho, chute para o Luquinhas, e gol de cabeça do camisa
10, que cai de raspão quebrando todo seu tendão”. Foi a primeira vez que eu
senti uma dor terrível, que atingia desde dos nervos até o coração de quem teve
que ficar quinze dias de cama sem poder jogar.
Como eu queria poder voltar naquele
tempo e ter apenas esse simples problema de criança. Mas como minha vizinha
Inhá sempre dizia: “Os problemas só crescem, meus filhos”, enquanto tricotava
algum crochê na sua cadeira de balanço que localizava no seu humilde jardim.
Mas na verdade sabíamos que a sua preocupação era com o seu canteiro de rosas
levar uma bolada.
O jogos
internos começaram rapidamente com o futsal, equipe preta contra vermelho.
Então já acordei me aquecendo devido ser da preta, coloquei minha chuteira da Nike, e percorri a cidade em um trote animado, deixando o sangue correr nas
minhas veias, com o intuito de dissipar a neblina da manhã. Assim que cheguei
na quadra as torcidas das equipes já estavam animadas torcendo pelas suas
cores, igual nos filmes americanos. Então passei na equipe vermelha onde a
Sarah, minha namorada, se encontrava com os cabelos de Maria-Chiquinha pulando
animada com os “pom-pom” na mão. Assim que ela me viu, veio ao meu encontro me
beijando, dizendo “Ôôôô o vermelho já venceu”. Então a minha equipe começou a
me gritar dizendo que já iriamos entrar, corri acenando para Sarah que animava
a torcida vermelha de uma forma irritante.
Assim que a partida começou, o
César passou para mim a bola. Corri um pouco, mas o Fábio da outra equipe
chegou para driblar, então passei para o Pedro que estava na minha lateral, e
ele correu para o gol, chutou e bateu na trave. E com esse mesmo ritmo o jogo
perdurou até o final do primeiro tempo, sem acontecer grandes vitórias. Mas
faltando apenas dois segundos, a bola passou para o Rodrigo, atravessou as
pernas do Fábio chegando ao pé do Diego que chutou para o alto acertando na
minha cabeça que arremessou fazendo o primeiro gol dos jogos. Mas nesse mesmo
momento o equilíbrio não me beneficiou e eu cai como alguns anos atrás, só que
dessa vez o meu tendão não se prejudicou, mas sim a minha visão que se
escureceram no mesmo momento.
“Sarah”, sussurrei assim que minhas
pálpebras se abriram com os lábios de uma garota da equipe médica. Então sem
conseguir raciocinar direito eu apenas correspondi, e no fundo uma voz abafada
perguntava: “O que está acontecendo aqui?”, então foi quando a ficha caiu que
eu tinha transformado mesmo sem saber uma respiração boca a boca em um beijo
que não era da Sarah. Tentei levantar com um grande impulso mas eu não
encontrei forças suficientes, ainda mais com as mãos da garota que fazia uma
barreira no meu peito, dizendo que tudo ficaria bem. E com seu sorriso sedutor,
ela começou analisar meu pulso.
Primeira publicação: http://www.projetomural.com.br/2017/07/sorte-no-jogo-azar-no-amor.html
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