ABRUPTAMENTE TE AMO
OIE, TATI! VOCÊ ESTÁ SENTADA?
Sinceramente, eu não sei nem
como começar. Primeiramente quero que você saiba que estou digitando essas
palavras sentada em uma privada dessas cabines que tem em festas de rua, o
cheiro é horrível mas a minha vontade de te contar as novidades é ainda maior.
Como você sabe eu me inscrevi
devido a insistência do Danilo no concurso de desfile que tem todo ano em
aniversário da cidade. Você deveria agradecer por em Ponte Nova não ter essas
palhaçadas, porque desde novinha eu vejo diversas garotas quase arrancando os
cabelos por causa desse evento. Mas eu nunca dei a mínima, por mais que minha
mãe comentasse que era uma tradição da nossa família a participação,
enfatizando que ela mesma ganhou o evento na adolescência. Então, agora você
tem noção de como eu cresci com essa pressão?
Mas bastou que eu entrasse na puberdade
para que eu tomasse uma atitude de nunca participar desse desfile brega. Mas,
mesmo sabendo de tudo o Danilo me colocou nessa enrascada. Argh. Bom, na
verdade agora eu acho que foi a melhor ideia que ele já teve na vida...
Tudo começou no sábado de manhã,
minha mãe não esperou que eu levantasse e foi me acordar dizendo que eu tinha
que ficar linda para o dia de hoje. Então eu comecei a resmungar um palavrão,
mas ela já estava puxando as cortinas e deixando raios muito intensos invadirem
minha caverna. Sim eu chamo meu quarto de caverna, desde que eu ouvi aquele
mito na aula de filosofia.
—Mãe que saco! Hoje é SÁBADO!
Dizendo isso enfiei o travesseiro na cara. Mas
minha mãe começou a listar uma série de tarefas que eu tinha para cumprir nesse
dia ensolarado. Como por exemplo fazer as unhas, argumentando que eu precisava
estar muito linda para o desfile. Nem preciso falar que ela fez questão de
comprar um vestido para mim com muita antecedência. Mas eu só acetei porque ela
deixou eu escolher o preto com cinza, ao invés do rosa que ela fazia muita
questão.
Assim que me levantei tomei um café
bem reforçado, pois logo em seguida fiquei vendo serem feitas várias atividades
insignificantes em mim, como passar esmaltes nas minhas unhas. Resolvi que o
melhor a fazer era aceitar, porque esse mico iria passar quase que
imperceptível pela cidade. Criei uma playlist aleatória no Spotify, com o
intuito de tirar alguns pensamentos da minha cabeça, como por exemplo o imbecil
do João que ainda fazia questão de me procurar. Mandei uma mensagem para o
Danilo dizendo o seguinte: “Você ainda me paga por isso!”
Depois de passar por diversas futilidades,
cheguei em casa muito exausta. E coloquei o vestido o mais rápido possível e
assim que me olhei no espelho me surpreendi com o reflexo. Eu não estava
parecendo uma modelo, e nem uma garota competente o suficiente para ganhar o
desfile. Mas eu estava me sentindo bem, com chances de um novo começo. Então
chamei minha mãe, e ela disse que eu estava simplesmente maravilhosa. Mas falou
que o melhor seria que eu vestisse na hora que eu fosse entrar, pois se não perderia
a graça, além disso corria o risco de sujar.
Ela disse que iria na frente para
pegar um lugar bacana, já que o Danilo tinha combinado de me pegar de carro.
Enquanto eu aguardava o Danilo chegar comecei a andar de um lado para o outro
tentando lembrar as dicas da minha mãe, mas eu não tinha certeza se eu
conseguiria fazer tudo certo. Tentei ficar calma, pois o nervosismo só iria me
atrapalhar ainda mais. Quando o Danilo chegou eu já tinha tirado o vestido e
colocado em uma sacola para que eu trocasse lá. Ele afirmou que eu estava
linda, e me cumprimentou com dois beijinhos. Assim que entramos no carro ele
disse que tudo terminaria bem, e colocou a música “I miss you”, do seu cd
intitulado “Anos 2000”. Desde que conheço o Danilo ele sempre adorou essas
referências, e com o tempo eu acabei me viciando também. Então no meio do
caminho começamos a cantar contra o vento: “Don't waste your time on me,
you're already The voice inside my head (I miss you, miss you)”
E nesse ritmo envolvente começamos a levantar as mãos para fora
da janela. Mas de repente um carro parou por algum motivo qualquer na nossa
frente e acabamos batendo em sua traseira com uma forte pancada. Meu corpo foi
para frente mesmo com o cinto de segurança, e um corte se formou nos meus
braços. O Danilo ficou bastante assustado e foi impulsionado para frente
arranhando a sua testa. Mas ainda assim estávamos bem. A não ser a nossa
respiração que se descontrolou totalmente.
Descemos do carro nervosos,
buscando alguma explicação para tal atitude do motorista na nossa frente. O
Danilo ficou muito estressado pela batida, mas ao mesmo tempo o motorista falou
que o seguro dele cobriria tudo. Mas ainda assim foi uma dor de cabeça, pois
eles tiveram que ir para a delegacia. Mas antes disso o Danilo assinalou para
uma moto que estava passando aleatoriamente e pediu que me desse uma carona até
a praça. Eu não consegui acreditar na sua atitude psicótica, afinal ele nem
conhecia o cara. Mas ele falou que ou eu confiava ou então eu não chegaria a
tempo, já que eu estava praticamente do outro lado da cidade. Ele apenas deu um
trocado para o motociclista enquanto pegava meu vestido no carro, e colocava o
capacete que estragava todo o meu penteado. Não que eu fosse me importar com
isso, mas minha mãe.... Aliás se não fosse por ela eu nem iria mais.
Perguntei incontáveis vezes para o Danilo se
ele ficaria bem, e ele assentiu em todas. Então me abraçou apertadamente e
disse: “Garota, vai! Agora! Vai! O mundo está te esperando lá do outro lado”, eu
sorri e dei um beijo no seu rosto. E montei na moto, tentando ficar em uma
posição confortável. No meio do caminho tive um pouco de medo porque o homem
acelerava bastante, mas eu não tinha coragem de dizer nada. A única coisa que
eu fazia era pedir mentalmente para que tudo acabasse bem.
Assim que cheguei lá, percebi tinha
um mutirão de pessoas, que se dividiam entre a passarela do desfile, e o palco
do show que teria mais tarde. Percebi que atrás da passarela tinha um pequeno
camarim, tentei entrar mas tinha um guarda na porta. Ele pediu minha
identidade, mas eu lembrei que tinha deixado no porta luvas do carro do Danilo.
Tentei explicar a situação mas ele falou que eu não poderia participar. Comecei
a chorar de raiva, por todo esforço que tinha feito para conseguir chegar a
tempo, quando na verdade eu podia ter ficado dando um apoio para o Danilo.
Pensei em chutar a canela daquele cara, mas poderia ficar ainda pior. Então
quando já estava pensando em sair dali, a mãe do Danilo apareceu.
—Tia Lúcia? Você por aqui?
—Oi minha querida, sim! Eu fiquei
responsável esse ano por cuidar da organização do evento. Você veio com o
Danilo?
—Então... Eu e o Danilo batemos em
um carro quando estávamos vindo. Mas não se preocupe ele está bem. Só que de
toda forma teve que ir para delegacia.
Na mesma hora que disse ela ficou
muito pálida, mas quando terminou de ouvir ela parecia mais leve. Abracei ela,
dizendo para ficar calma. Então ela pediu que eu entrasse, mas eu expliquei a
situação, e ela disse que aquilo não era um pedido, mas sim uma ordem. Então
envolvidas em um abraço passei pelo guarda rindo, mesmo sabendo que ele não tinha
nenhum um pouco de culpa.
Chegando lá dentro eu comecei a
ouvir os gritinhos apavorado das garotas, batom para lá, vestido para cá. Uma
confusão sem igual. Meninas chorando, outras com falta de ar. E uma observando
tudo cinicamente, Sônia. Falei um “oi”, geral. Algumas sorriram, outras
torceram o nariz, e outras nem olharam. A mãe do Danilo pediu que eu me aprontasse
que daqui alguns minutos começaria. Deixei a sacola em um canto enquanto
entrava no banheiro para ajeitar o cabelo, e conferir a maquiagem.
Estava um
pouco bagunçado o cabelo mas ainda assim era o melhor possível. Peguei a sacola
com o vestido e ao entrar no banheiro novamente, percebi que ele estava rasgado
no meio. Pensei em gritar, mas não tinha nada que eu pudesse fazer. Mesmo
sabendo que foi aquela baranga que fez a arte. Mas eu não podia deixar o jogo
terminar assim. Então tive uma ideia muito louca, mas ainda assim minha única
chance de desfilar. Aguardei impacientemente até chegar a minha vez. A Sônia
que foi na minha frente, foi muito bem aplaudida. E chegou sorrindo
debochadamente. Então a Lúcia avisou que era a minha vez. Respirei fundo e saí
olhando para frente e para os lados.
Então
enquanto alguns aplaudiam, eu tentava caminhar com o máximo de postura
possível. Ao chegar no meio da passarela eu apenas puxei o alfinete que
segurava o vestido parecendo que ele estava intacto. E todos ficaram de bocas
abertas pensando que eu tinha rasgado o vestido, e começaram a gritar sem
parar. Ao chegar no final eu apenas fiz uma pose deixando aparecer a vontade
meu corpo e o meu sorriso. E nisso virei o cabelo enquanto voltava para dentro
do camarim. E a plateia gritava sem acreditar no que tinha acabado de
ver. Assim que entrei dentro do camarim apenas disse para Sônia: “Que
pena que você não viu EU rasgando vestido”, ela apenas fez uma cara de
desentendida e me fuzilou com os olhos.
A Lúcia
perguntou se estava tudo bem, e eu disse que melhor impossível. Ela sorriu e
voltou ao trabalho. Assim que todas nós desfilamos, os jurados e o público
iriam votar na melhor “modelo”, da cidade. Depois de quase mais ou menos
uma hora os votos foram apurados, e o prefeito iria anunciar. Juro que apesar
de não fazer a mínima para mim ganhar, nesse momento meu coração gelou,
enquanto todas nós esperávamos na passarela o anúncio. Abruptamente, assim como
foi comigo “rasgando” o vestido, falaram o nome da vencedora:
—A garota
modelo da nossa cidade nesse ano é – achei seriamente que enfartaria - Raquel
Nerine!
—O
que???
Todos gritavam imensamente e no
meio do público eu consegui identificar minha mãe chorando de emoção. Sorri sem
saber o que dizer, nisso o prefeito me deu uma medalha e fez um breve discurso.
Então depois quando já estava descendo do palco, vendo a Sônia mastigar de
raiva. Eu ouvi a voz dele, João.
—Espera Raquel, você precisa me
ouvir. Se depois de tudo o que eu falar você quiser ir embora eu vou te
entender. No dia da festa do Bruno eu queria fazer uma surpresa para você,
chegando do nada e te pegando na sua casa para curtirmos a night juntos. Mas
antes de passar na sua casa resolvi dá um pulo na festa. Chegando lá o Bruno me
falou que você estava presente, então comecei a te procurar e no meio do
caminho a Sônia apareceu e pediu que eu ajudasse ela a encontrar o banheiro.
Quando você estava quase se aproximando ela me lascou aquele maldito beijo, que
eu tentei me desvincular o mais rápido possível. Mas nisso você já tinha
entendido tudo errado...
“Então quando ela rasgou seu
vestido e tirou as fotos e voce foi embora com o Danilo eu pressionei ela para
revelar o motivo de tudo aquilo, mas ela apenas foi embora sem dizer nada.
Então no outro dia procurei o Danilo mas ele nem quis me ouvir, muito menos
você. Mas teve um dia que foi ele que me procurou dizendo ter descoberto tudo!”
“Enquanto ele ajudava a mãe dele
organizar as fotos para o evento ele percebeu que aquelas fotos utilizadas pela
Sônia eram suas, tiradas no dia da festa. Provavelmente porque a mãe do Danilo
incentivou você participar na frente dela. O que fez a Sônia ver uma ótima
oportunidade em tirar fotos do seu corpo, e armou toda a situação da festa.
Fazendo apenas algumas adaptações no photoshop. Sei que voce vai pensar que ela
poderia pegar uma imagem da internet, mas a equipe de organização tem um
aplicativo que identifica plágio. Agora uma foto que ela mesma tirou nunca
existiria em outro local.”
Enquanto ele explicava cada
detalhe, meu coração dava um salto.
—Pensamos em desmascarar toda a
história, mas achamos mais justos ela sentir na pele. Antes de brincar com os
sentimentos das pessoas. Então o Danilo deu a sugestão de você participar do
desfile, e mesmo sem ganhar desmascará-la na frente de todos presentes. Essa
garota é uma verdadeira trapaceira.
“Mas apesar de toda essa confusão,
desses vestidos rasgados, dessas intrigas eu quero que voce saiba que do meu
coração nunca será rasgado o que eu sinto por você. Abruptamente te amo.”
Dizendo isso a nossa música “Have You Ever Seen The
Rain?”, começou a tocar. Eu simplesmente esqueci de todos que
estavam em volta, e fui ao encontro do João. Beijando sua boca da forma mais
profunda que eu já havia beijado. Todos gritaram ainda mais, batendo palmas. E
no fundo daquela multidão eu percebi que o Danilo estava abraçado com aquela
Lorrainy que vai fazer a maior festa de quinze anos aí em Ponte Nova. Eles
formavam um belo casal. Tive vontade de bater nele por ter escondido tudo
aquilo, mesmo vendo meu sofrimento. Mas no final foi por uma boa causa.
Depois de todo o discurso do João,
uma garota veio me falar que viu a Sônia cortando meu vestido, e eu apenas sorri e
disse: “Parece que o plano dela deu errado, não é mesmo?”
Agora estou aqui digitando tudo o
que acabou de acontecer com o coração a mil, por redescobrir que realmente eu
sempre estive certa em relação ao João. Mas acho que vou ter que parar por aqui
pois tem alguém chutando a porta e perguntando se eu estou precisando de ajuda.
Afinal já faz uns quinze minutos que eu estou sentada nessa privada digitando
desenfreadamente.
Um grande abraço, da sua “modelo”
hehehehe,
Raquel
P.S.: Tati, eu fiquei sabendo que você anda divulgando minhas
mensagens em forma de crônica no site “O Mural”, da sua escola. Não estou
acreditando nisso, de verdade. E ainda por cima nem estou recebendo os créditos
das minhas enrascadas, hehehe. Parece até história de livro, né?
Gabriel Bhering
Primeira Publicação:http://www.projetomural.com.br/2017/06/abruptamente-te-amo.html

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