TENTE ME ENXERGAR



“Hey, you
Out there on the road
Always doing what you're told
Can you help me?”

Acordei cedo hoje, lavei o rosto e fiquei encarando meu reflexo no espelho. Meus cabelos de um tom meio indefinido estavam arrepiados pela noite mal dormida e minhas olheiras acentuadas. Respirei fundo, e vesti a primeira camisa que encontrei no guarda-roupa. Olhei as horas e ainda era bem cedo, verifiquei as mensagens no WhatsApp e Aline, minha namorada, tinha me mandado “Bom dia”, como de costume.

Fui a cozinha peguei algumas torradas e um suco natural de laranja que estava na jarra em cima da mesa. Pelo silencio do ambiente pude concluir que meus pais já tinham saído, como sempre, provavelmente já estavam chegando no trabalho. Assim que terminei de tomar o café, a Marta chegou. Ela perguntou se eu precisava de alguma coisa, mas eu apenas neguei com a cabeça dizendo: “obrigado”.

Após escovar os dentes, peguei um tênis surrado e calcei, coloquei a mochila nas costas sem nem ao menos conferir quais cadernos tinham nela. Peguei a chave do carro e fui em direção a escola. Quando fiz dezoito anos, mês passado, meus pais me deram um carro e disseram que aquele presente não era para me mimar e nem nada disso, mas uma forma de antecipar o que eles já sabiam, minha aprovação no curso de direito na maior universidade do Brasil. 

Apesar de já estar no último ano do ensino médio eu ainda não faço a mínima ideia de qual curso quero fazer, mas parece que isso não faz muita diferença para os meus pais. Desde bem novinho eu fui para eles um livro em branco onde eles sempre escreveram as páginas da forma como acharam melhor. Sendo assim minha vida sempre foi um amontoado de expectativas.

Mês passado meus pais receberam uma mensagem do colégio que dizia que que eu me encontrava muito distante das aulas e do colegas. Minha mãe com um ar de antipatia, disse que aquilo era mais do que normal, pela proximidade do vestibular. Meu pai se recusou a ler, pois, conforme ele, a época de bilhetinhos ficou perdida no jardim de infância e que agora eu era um homem adulto e sabia das minhas responsabilidades.

Mas, parece que crescer não é tão fácil assim. Quando eu era mais novo, sempre fui uma pessoa dedicada, só que de uma hora para outra parece que tudo deixou de fazer sentido. Formar para que? Fazer faculdade para que? Para depois terminar em um trabalho que pegará a maior parte do meu dia? Sinceramente, não vejo graça nessa vidinha medíocre. E por mais que eu não queira eu vou acabar tendo esse destino se continuar com esse padrão de vida.

Assim que cheguei no colégio fiquei sentado em um muro que tinha ao lado do portão e fiquei pensando o que eu estava fazendo nesse mundo e principalmente o que é esse mundo? Quando a Aline chegou, foi me cumprimentar com um beijinho, desviando meus pensamentos.

            —Oi, Pedro!

            —Oi, minha linda. Como vai?

            —Vou bem. Já você, parece estar meio abatido... — disse ela passando seus dedos sobre minhas olheiras.

            —Insônia, não se preocupe. 

            —Pedro, vamos entrar? A aula já vai começar!

            —Vou matar aula hoje, tenho que resolver uns negócios.

            Ela me olhou com uma expressão séria e disse:

            —Mas Pedro hoje tem prova de química, qual o seu problema?

 —Depois eu peço para minha mãe vim aqui dar uma desculpa qualquer, e aí eu faço uma segunda chamada.

            —Você está faltando muito, muito mesmo! — Disse ela ficando ainda mais séria e decepcionada — bom, vou indo então, não quero chegar atrasada.

            Nesse momento ela nem se virou para trás e foi em direção a porta do colégio, mas antes que ela entrasse eu puxei seu braço e trouxe seu rosto para mais perto do meu, segurando sua nuca. Olhando profundamente para os seus olhos que em todos momentos estavam brilhantes, acariciei seu rosto e parei meus dedos em seus lábios que eram macios. Aproximei meus lábios deixando que eles encostassem levemente nos dela, provocando um quase beijo, que inesperadamente aconteceu de forma mais intensa do que nunca.

            Sem dizer nenhuma palavra nos desvinculamos e ela foi em direção a escada, ficou parada no último degrau enquanto eu acelerava, tentando memorizar para sempre seu rosto. Após percorrer um percurso aleatório estacionei o carro em uma praça deserta. Chegando lá, sentei abaixo de uma arvore e acendi um baseado tentando suportar o universo que naquele momento parecia extremamente insignificante. Após tal ato, digitei um emoji de um coração e mandei para os meus pais.
            
Agora, estou aqui olhando para imensidão desse mundo, sem a mínima vontade de continuar. Sem a mínima vontade de seguir em frente. Acabei de pegar uma série de comprimidos e até mesmo venenos que vou colocar na boca de uma vez só, eu preciso transbordar, mesmo que para isso eu precisa morrer. Estou vendo uma guardinha se aproximando ao longe, mas minhas vistas estão começando a escurecer e meus pensamentos estão meio confusos. Ao longe, ouço uma voz: “Pare, pare, pare! ”, mas já não sou mais capaz de responder...

“But it was only fantasy
The wall was too high, as you can see

No matter how he tried, he could not break free”

Gabriel Bhering 


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