ERA ELA

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“Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim, deixa vir do coração...”


—Ninguém merece aula de sociologia — o Davi falou, enquanto esperávamos o ônibus.
­            —Eu acho legal ­­— o Carlos retrucou com os olhos grudados nas notificações do celular que não parava de apitar.
—Só espero que hoje realmente tenha aula, porque ultimamente...
Eles riram do meu comentário ao lembrar das últimas “aulas” e, mais ou menos nesse momento, o circular apontou. Rapidamente nos aprontamos com a esperança de conseguirmos um lugar.
Assim que chegamos ao ICH, fomos para o DA, e ficamos jogando ping-pong. Toda vez que entro no espaço de convivência deles me sinto imerso no conceito de “humanas”, não sei se é pelo fato das paredes serem grafitadas, ou pela música de fundo, mas tem algum elemento naquele lugar que expressa bem esse conceito.
Não demorou muito para a aula de sociologia começar, fazendo com que fossemos para sala ainda com a “vibe humanas” exalando em nossos corpos. Como sempre a sala estava lotada, afinal é um curso que junta diversas turmas, economia (nosso curso), jornalismo, BI, psicologia e outros.
Enquanto a professora explicava sobre algum sociólogo, ela entrou, um pouco atrasada, mas linda como sempre. Já faz algumas aulas que venho reparando nela, só reparando, afinal que chance eu tenho?
Os cabelos lisos escorrendo em suas costas, o olhar assustado e o sorriso instigante. Como eu gostaria de saber algo sobre ela. Mas eu não posso chegar nela do nada e falar: “Oi, quem é você?”, soaria muito avulso para o séc. XXI, ou não, pois nas baladas não existe nem essa intermediação, as pessoas já partem logo para o beijo.
Voltei a prestar atenção na aula, e de vez em quando a olhava, como quem não quer nada. Ela olhava de volta, ou talvez era só minha cabeça que alucinava. Na hora da chamada, fiquei bem atento para descobrir o seu nome, que agora eu sei que é Bruna. Todavia, o que isso me ajuda? Quantas Brunas tem no mundo? Chateado continuei a anotar alguma característica do sociólogo em questão.
Desanimado e sem esperanças de que um dia fosse trocar um tímido “oi” com ela, tive uma ideia. Uma péssima ideia, confesso. Mas iludido do jeito que eu sou, pensei comigo: “Não custa nada tentar!”
Assim que a aula acabou a professora mandou um e-mail. E, foi nesse momento que eu tive a grande ideia — ou péssima, depende do ponto de vista. Através desse e-mail é possível ter acesso aos e-mails de todos estudantes da disciplina, ou seja, era minha chance de comunicar com a Bruna.
Ok, isso está parecendo um pouco Pré-Histórico, mas e daí? Melhor mandar um e-mail para ela do que ficar apenas sonhando com uma possível conversa que só acontece na minha mente.
Coloquei uma música aleatória de mpb para tocar, enquanto transformava os sentimentos que estavam em meu peito em palavras, ou pelo menos tentava.

De: admiradorgaroto@gmail.com
Para: brunafrancisquini@gmail.com
Enviada: 04 de setembro, 2019

Bruna,
Por favor não exclua esse e-mail sem ler e não fique assusta, não sou nem um maníaco. Eu juro. Leia até o fim e, se mesmo assim não tiver nenhum pouco de curiosidade, descarte.
Já faz uns dias que venho te reparando, mesmo sem você perceber. Não sei se é esse seu olhar assustado, ou esse seu sorriso instigante, mas você chama minha atenção de um jeito que me deixa assim, meio bobo, meio perdido, meio sonhador.
Não sei por onde começar, mas vamos lá. Sou da sua aula de sociologia, e gostaria de poder te conhecer além dos olhares, mas não sei como fazer isso de forma natural. Acho que você percebeu, não é mesmo?
Na próxima aula estarei te esperando no escadão na hora do recreio, ops, intervalo. Não é um encontro, até porque não precisamos dramatizar tanto esse momento. Desculpa, se de certa forma eu já estou fazendo isso. Mas essa foi a forma que eu arrumei para tentar te conhecer, um pouco rudimentar, mas garanto, que sincera.
Estou esperando ansiosamente esse momento. Um beijo,
Do seu Admirador (desculpa a pateticidade desse título)


            Obviamente, eu inventei um e-mail, afinal, se não fosse para ficar no anonimato eu poderia ter chegado nela pessoalmente. Chegou o dia da aula, e nada dela responder, provavelmente ficou assustada e me bloqueou, mas mesmo assim calcei a cara, e fui ao “encontro”.
            Assim que a professora liberou para o intervalo, fui para o escadão. Ao chegar lá esperei um pouco nervoso, os minutos foram passando e eu só conseguia sentir o meu coração acelerado. “Ela não vai vir”, pensei comigo. “Eu sou um idiota mesmo de achar que uma menina vai cair nessa de admirador secreto”, martirizei.
            Sentei na escada do escadão — isso ficou estranho —, enquanto os raios de sol batiam bem nos meus olhos. Mais ou menos nesse momento, que eu já estava quase levantando para ir embora, ouvi uma voz suave ecoar pelo ambiente:
            ­—Oi!
            Era ela.

“Não há como doer pra decidir
Só dizer sim ou não
Mas você adora um se...”

      
Gabriel Bhering      

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