Janelas Abertas

 


 

“Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para”

-Lenine

 

 

 

O calendário acadêmico foi suspenso!

Como assim, Pedro? – perguntei sem entender.

Um filme começou a passar na minha cabeça. Eu tinha feito tantos planos para esse ano: curso de francês na letras, grupo de jovens na Igreja do São Pedro, barzinho nos sábados, cineminha no domingo à tarde. Tudo. Absolutamente tudo, eu tinha planejado. Porém, não estava na minha listinha coronavírus. Apesar que, meu avô, sentado no sofá, assistindo ao jornal, tentou me alertar: “Júlio, tem um vírus destruindo a China e, se bobear, ele vai chegar aqui!”. Eu, enquanto deslizava a time-line, olhei para ele por alguns segundos, considerei, e, devo admitir, revirei os olhos. Minha mãe, que estava ao meu lado, também não acreditou.

Cara, como assim digo eu! O vírus tá só se espalhando, você quer ficar aqui e pegar circular lotado?

Não, é só que... Eu não imaginava que fôssemos parar!

Assim que terminei de falar, avistamos a sala de cálculo II, onde teríamos a primeira aula. Bastou que colocássemos o pé na sala, para o professor, cujo nome não deu nem tempo de memorizar, falou que às aulas de fato estavam suspensas, confirmando o comentário do Pedro que, até então, achava que era uma pegadinha ou sei lá, uma fake News.

Mas pigarreei hoje ainda tem aula, né?

Não, a suspensão começa hoje. Peço que se retirem, por gentileza.

Naquele momento, a ficha caiu. E, no mesmo instante, várias perguntas começaram a surgir: “Vou ter que continuar pagando o aluguel da república?”, “Será que vai ter aula online?”, “Vou ficar atrasado?”, “Já vou embora hoje?”...

Enquanto descíamos o escadão, eu comecei a prestar atenção em todos os detalhes da universidade. O verde de Juiz de Fora que, desde a época do pism, eu acho que tem um tom diferente. Os estudantes que subiam e desciam com seus sonhos, medos e ilusões. A escada que parece infinita. Quando chegamos ao portão sul, comentei com o Pedro que teria que passar na biblioteca para devolver alguns livros de física e química. Ele, sem questionar, concordou de passar lá comigo.

Quando chegamos na praça central, ficamos observando o planetário – um dos pontos mais marcantes da UFJF – local onde o Pedro começaria uma bolsa, voltada para parte de astronomia, motivo pelo qual ele escolheu cursar Ciências Exatas.

Que pena, estava tão animado com esse projeto!

Não fica assim, a pandemia deve que vai durar só um mês disse com esperança, enquanto o olhar dele estava perdido em algum ponto isolado.

Vamos lá na biblioteca, então?

Bora! assenti.

Conversei com a senhora da recepção, e ela, muito educada, falou que eu poderia ficar com os livros, pois o prazo de entrega seria prorrogado, diante da situação atípica e, desse modo, posso acabar estudar algo na quarentena. Sorri, pra ela satisfeito.

Quando chegamos na república, um sentimento de nostalgia antecipada começou a rodar meu peito. Olhei os quadros com as pessoas que passaram por aqui, tanta história... Engoli em seco.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem no grupo da família, não o grupo da família que engloba primos, tios... Mas o grupo de casa, que tem eu, meus pais e minha irmã de doze anos que passa a manhã toda na internet.

 

 

Júlio: “Gente, minhas aulas foram suspensas!

Tô voltando hoje ainda, beleza?”

Lú: “Ai, droga! Sério que vou ter que disputar o controle da TV de novo com você?”

Júlio: “É maninha, seus dias de glória estão próximos do fim!”

Mãe: “Nossa, vocês não param nem um minuto, heim? Estamos te esperando, filho! Que situação chata, mas em breve tudo se normalizará, se Deus quiser! Beijo!”

            Júlio: Beijo, mãe!

 

 

Assim que minha mãe respondeu, comecei arrumar minhas coisas. Primeiro as roupas, depois os livros mais importantes, além de notebook, pasta com atividades e trabalhos. Quando terminei, bati na porta do quarto do Pedro. Ele respondeu:

Já vai, tô no banheiro! passou um tempinho, ele girou a maçaneta abrindo uma fresta da porta O que foi, amigo?

Então, vou embora umas 15h, se você for mais ou menos nesse horário podemos rachar o Uber, que tal?

Fechado, vou ir 16h25.

Quando deu a hora peguei a bolsa, e fui até torto em direção ao local em que combinamos com o uber – no caso, em um bar na avenida principal, pois barateia o valor. Não demorou muito para o carro apontar. Assim que entramos, o motorista perguntou se aceitávamos uma bala, o Pedro aceitou, eu, que já estava meio enjoado só de lembrar que pegaria estrada, recusei. Fomos conversando sobre as matérias que tínhamos acabado de começar, enquanto percorríamos o longo trajeto, já que, a rodoviária é do outro lado da cidade. Ao chegamos, fomos comprar a taxa de embarque e comer um lanche.

Conversamos mais um pouco sobre assuntos aleatórios e, quando fui ver, já estava na hora de pegar meu ônibus. Despedi dele com um abraço, meio chateado, mas ainda assim, com a esperança de revê-lo em breve. A viagem para casa foi cansativa, mas ocorreu tudo bem, graças a deus.

O primeiro dia de quarentena foi legal, afinal, matei a saudade dos meus pais e da minha irmãzinha implicante. O segundo dia também foi bom, aproveitei para marotonar as séries atrasadas, devido a rotina da facul, que já começava a ficar intensa. Mas assim que deu o terceiro dia, comecei a ficar entediado e até mesmo claustrofóbico.

Entretanto, continuei pensando comigo: “Tá tudo bem, de um mês não passa”. Abril chegou, maio chegou e nada. Muito pelo contrário, a UFJF suspendeu o calendário acadêmico, sem prazo de volta. Lógico que a atitude dela foi a mais responsável possível, mas eu ainda não conseguia aceitar.

Um certo dia, em julho, enquanto estava lendo. Meu celular apitou. Dei uma espiadinha, era o Pedro.

 

 

Pedro: Amigo, peguei o corona! :(

Júlio: Sério, Pedro? Como você tá?

Pedro: Tô com aqueles sintomas, né... Dor de cabeça, falta de ar, coração acelerado... Nossa, é péssimo!

Júlio: Nem sei o que dizer, amigo!

 Melhoras! Qualquer coisa me chama, estou aqui! ;)

Pedro: Muito obrigado, Júlio!

 

 

Conversamos mais um pouco, e assim que minha mãe chegou contei para ela a má notícia do Pedro, ela pediu que eu ficasse calmo que, por ele ser jovem, não teria nada além dos sintomas. Olhei para ela buscando encontrar certeza em seu olhar, mas ela apenas engoliu em seco.

No mesmo instante fiquei cabisbaixo, ela, percebendo meu estado, resolveu puxar assunto sobre a série que tínhamos começado assistir, mas não correspondi dando prosseguimento ao papo anterior.

Mãe, ele tem bronquite.

Calma, Júlio! Vai dar tudo certo, você não pode se desesperar! Precisa ter fé!

Apesar de ter continuado minha leitura, comecei a mandar mensagem direto para o Pedro, afim de saber se estava tudo bem, até então, estava tudo certo. No entanto, quando deu o quarto dia, desde a confirmação, ele começou a sentir muita falta de ar, que culminou em internação. Mas, segundo ele, não era motivo para esquentar a cabeça, pois internação era apenas por precaução, porque não era nada grave. Fiquei aliviado, mas ainda assim em alerta.

No quinto dia, acordei, e, antes de ir ao banheiro ou fazer qualquer outra coisa, peguei o celular para mandar mensagem para o Pedro, mas ele não visualizou. Fiquei ansioso, e resolvi olhar os status, enquanto ele não respondia. De repente, vi o nome dele entre os contatos que tinham atualizado o status. Sorri, imaginando que ele estava melhor e até arriscou fazer uma piadinha nas redes, contudo, assim que abri, meu coração disparou.

 

 

 

Nota de Falecimento: É com imenso pesar que comunicamos o falecimento de Pedro Bittencourt de Oliveira.

 

 

 

Não pode ser!

Comecei a chorar desenfreadamente, enquanto gritava minha mãe!

O que foi filho? minha mãe perguntou assustada.

O Pedro faleceu! disse com a voz entrecortada pelo choro.

Ela, em choque, me abraçou sem dizer nada. Depois disso, tudo se passou de modo automático, como se eu estivesse fora do meu corpo vendo a cena de longe. Minha mãe comprou comigo a passagem, entrei no ônibus, peguei um Uber e cheguei na capela funerária, sem coragem para prosseguir, sem saber o que dizer... Sem acreditar!

Assim que olhei para o caixão – lacrado –, repeti mentalmente: “ele morreu”. Não consigo acreditar que o meu melhor amigo... morreu. Por que meu Deus? Até “ontem” estávamos pegando circular juntos, estudando na biblioteca, reclamando da fila do RU, enfim, vivendo nossa vida de universitários, e do nada apareceu esse vírus ridículo que tirou a vida dele.

Enquanto um filme passava pela minha cabeça, a Clara, crush do Pedro, apareceu e me deu uma abraço apertado, dizendo com os olhos lacrimejados: “Sinto muito”. Assenti, sem forças pra agradecer. Sem dúvidas, o Pedro ficou feliz dela ter vindo.

Após o breve velório, fiz questão de ir ao funeral mesmo com uma grande confusão mental. Quando o caixão desceu, não tive força de continuar. Ajoelhei chorando muito, e a tia dele me ajudou oferecendo água. Eu só queria acordar e descobrir que tudo não se passou de um pesadelo. Mas, dessa vez, o pesadelo durou mais que o normal.

Agora, estou aqui, no meu quarto, escrevendo em sua memória, com as janelas abertas, olhando para você que se transformou – naquilo que você mais gostava – em uma estrela, que, com toda certeza, iluminará para sempre minha noite e meus passos...

 

“Enquanto todo mundo

Espera a cura do mal

E a loucura finge

Que isso tudo é normal

Eu finjo ter paciência”

-Lenine

 

 

 

Gabriel Bhering, graduando em jornalismo pela UFJF.

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