RETROCESSO - PARTE II
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| (Fabiana Fontes) |
Aviso: Caso ainda não tenha lido a Parte-I, corre: https://bheringgabriel.blogspot.com/2019/06/retrocesso-parte-i.html Depois
volte aqui ;)
Basta
você ligar a televisão que toda hora passa um filme ou uma série onde alguém
está indo para a cadeia, e o que costumamos pensar? “Ah, isso nunca vai
acontecer comigo!” Eu também pensava assim, até que de repente, era eu quem
estava indo para cadeia e não os personagens desses filmes de ação ou até mesmo
de comédia. Após o Brasil ser dominado pelos ditadores, em pleno séc. XXI, com
a vitória do candidato fascista que nem o nome merece ser pronunciado, eu me
envolvi em um movimento que busca resgatar a democracia e o direito do povo que
em geral está alienado.
Provavelmente
se alguém que me conheceu antes da eleição ficasse sabendo que eu seria contra
a ditadura, não acreditaria. Afinal, eu, assim como meus pais sempre
compartilhei uma ideologia conservadora que muitas vezes chegava a ser
desumana. Esse foi o único ponto positivo desse presidente ter ganhado, o fato
de eu ter mudado minha visão, que até então era algo repugnante.
Hoje
vai fazer uns três dias que estou nessa bendita prisão, e parece que já faz
três anos. Assim que meus pais ficaram sabendo eles vieram me visitar com os
mais variados sermões. “Você sempre teve de tudo, melhor escola, melhor roupa,
melhor vida, e mesmo assim quis se envolver com essa gente de esquerda, que
vergonha! ”, dizia meu pai, enquanto minha mãe engolia um soluço abafado pelo
seu choro. Por fim, eles disseram que tentariam me tirar de lá o mais rápido
possível, mas de acordo com eles vou ter que terminar o meu terceiro ano no
exterior, pois talvez lá minha cabeça volta para o lugar.
Droga!
Eles acham que me tirar do Brasil, vai fazer com que eu mude minha concepção de
mundo. Sinceramente, acho extremamente difícil. Enquanto meus pensamentos
voavam para tudo que estava acontecendo, o faxineiro que limpava a cela
apareceu, e começou a assobiar uma música enquanto passava o pano de chão, com
cara de poucos amigos. Nesse momento eu percebi que ele era bem desligado e não
era muito difícil sair e fechar ele lá dentro, afinal ele nem se atentou para
tirar a chave da porta.
Apesar
de estar em uma cela sozinho, eu conseguia ouvir o barulho de outros presos que
pareciam não aguentar mais um minuto aquele lugar, enquanto o faxineiro limpava
um dos presos da sala ao lado começou a xingar vários palavrões que nem eu
consegui entender, diante do grande número de palavras amontoadas. O faxineiro
fez uma cara de tédio e esmurrou a parede que dava para sala deles e disse:
“Cala a boca, se não chamo o doutô”.
Nesse
momento eu percebi a grande possibilidade que eu tinha, e sem pensar o que faria
depois, eu apenas saí da cela, peguei a chave e comecei a fechar prendendo o
faxineiro lá dentro. Ele começou a gritar muito alto e eu apenas disse enquanto
corria: “Desculpa”. Assim que comecei a me distanciar da cela onde estava,
alguns presos pediram para que eu abrisse as grades, mas eu apenas fiz de conta
que não estava ouvindo, afinal não sabia por quais motivos estavam ali. Um
deles falou: “E aí doido, libera para os parças!” Chegando na cela da Malu
apenas abri e ela me olhou com cara de espanto e perguntou:
—Luka?
O que você está fazendo aqui?
—Vim
salvar a princesa!
Ela
revirou os olhos, e antes que pudesse dizer alguma palavra eu puxei ela pelo
braço. Assim que começamos a correr eu olhei para ela sem saber o que fazer.
—Quem
vai salvar a princesa agora? — Perguntou ela com um tom irônico — Vem!
Puxando
meu braço em direção a uma porta de madeira rústica e velha ela me direcionou
para uma sala com um amontoado de parafernálias, e tinha também ao fundo uma
porta. Assim que abrimos demos de cara em um local com bastante mato e um muro
no fundo.
—Vamos
ter que pular!
Eu
coloquei minha mão para que ela apoiasse seu pé e se projetasse para rua, e
quando ela já estava quase saindo percebi que alguém tinha entrado na sala por
onde tínhamos saído, pois o barulho lá estava muito alto. Então para não perder
tempo pulei o muro com bastante facilidade por ser alto e assim que pisei na
rua, abracei a Malu, enquanto ela dizia:
—Estamos
livres!
—Vamos
correr para algum canto, antes que eles nos achem.
Fomos
andando a passos largos para uma lanchonete que se encontrava em outro
quarteirão, chegando lá apenas sentamos em um lugar escondido e então eu
perguntei.
—Como
você sabia daquela saída?
—As
vantagens de ser filha de um delegado – disse ela mostrando seus dentes
branquinhos que contrastavam com sua pele de tom escuro – teve uma vez que meu
pai comentou que tinha um lugar da cadeia que era muito arriscado, pois era
fácil para fugir, e eu fiquei com esse negócio na cabeça.
—Genial,
o único problema é que agora somos fugitivos – disse deixando escapar um riso.
—O
que vamos fazer?
—Temos
três opções! A primeira é continuarmos como fugitivos e nos isolarmos em algum
lugar distante, até o final da ditadura. A segunda continuarmos fugitivos e
mobilizarmos as pessoas contra a ditadura. A terceira nos entregarmos!
—A
terceira não é uma possibilidade, não somos criminosos, somos revolucionários!
Eu me entregar? Jamais.
—Quem
diria heim? Aquela menina dos corredores não é só uma garotinha mimada!
Nesse
momento ela corou, e olhou para as mãos sem saber o que dizer. Eu para quebrar
o gelo falei:
—Vamos
escolher a segunda!
—Boa!
Só que precisamos mandar uma carta para delegacia dizendo que estamos bem e que
pedimos desculpas pela situação, mas é tudo pelo bem do Brasil.
—Ei,
como você conseguiu sair da sua cela?
Contei
para ela, enquanto seu sorriso se alongava a cada descrição. Conversamos por um
longo tempo, afinal dinheiro para comer não tínhamos. Inclusive essa era uma
das nossas preocupações, pensamos em diversas coisas, mas infelizmente a nossa
única solução foi pedir ajuda.
Quando
chegamos à conclusão que teríamos que bater de porta em porta eu só conseguia
lembrar das pessoas que apareciam lá em casa e na maioria das vezes meus pais
não davam a mínima. Agora era o filho deles que estava atrás da porta, o mundo
realmente dá muitas votas. Respirei fundo e junto com a Malu fui bater na porta
da primeira casa de uma rua próxima a lanchonete.
—Quem
gostaria? — Uma senhora perguntou com a voz rouca, provavelmente pelo sono da
noite que começava a cair.
—Somos
dois amigos, e precisamos de comida – disse Malu, sem graça.
—Desculpa,
mas não tenho nada.
Engoli
em seco, por ter que passar por tal situação. Jamais imaginei que um dia isso
fosse acontecer, pois apesar de não ser a pessoa mais rica desse universo, é
inegável o fato de eu ter uma condição financeira muito favorável no padrão
tradicional brasileiro, ou melhor meus pais, pois no momento, não passo de um
fugitivo.
Assim
que nos aproximamos da próxima casa, bati na porta com um fio de esperança. Um
senhor de idade abriu a fresta e perguntou:
—Boa
Noite! Em que posso ajudar?
Sorrimos
imediatamente, e Malu rapidamente perguntou.
—Estamos
famintos, será que poderia nos oferecer um pouquinho de comida?
—Claro
meus queridos, entrem por favor!
Olhei
para Malu como forma de verificação se aquilo era o melhor a ser feito e ela
apenas assentiu com a cabeça, e entramos sem pensarmos muito. O bairro onde se
localizava a casa era intermediário e costumava abrigar uma população mais
idosa. Isso ficou bem claro assim que entramos na casa, pois praticamente tudo
tinha um ar rústico e antigo, que dava ao ambiente um ar meio nostálgico.
—Podem
sentar, enquanto vou pegar uma canjica. Vocês gostam?
Eu
por exemplo nunca fui de comer canjica, mas diante da minha fome qualquer coisa
descia. Enquanto o bom senhor foi pegar as canjicas eu me peguei olhando para
Malu. Seus cabelos possuíam cachos que se derramavam sobre sua pele de tom
negro, seu sorriso sempre encantador soltava de seus lábios para me alegrar, e
suas belas curvas me deixam boquiaberto, desde quando ela passava pelos
corredores da escola.
Fui
despertado do meu transe quando o senhor apareceu com as canjicas todo
sorridente. Enquanto comíamos ele perguntou sobre a nossa história e contamos
todos os detalhes desde a manifestação onde acabamos atrás das grades.
—Meus
filhos, eu já passei por algo bem semelhante na ditadura anterior. Mas, não
percam a fé no final tudo termina bem. Sei um jeito de tirar vocês dessa
situação.
Disse
ele coçando a barba que dava a ele um ar misterioso e quase sombrio. Enquanto
colocava uma colher de canjica na boca, perguntei:
—Como
assim seu Arnoldo? – Descobrimos seu nome enquanto relatávamos tudo o que
passamos.
—Não
se assustem mais eu sei um feitiço – assim que ele usou a palavra “feitiço”,
olhei para cara da Malu com extremo espanto, pois sempre fui meio medroso com
essas coisas, mas ela parecia relativamente tranquila – esse feitiço consiste
mexer no espaço e no tempo, portanto tem chances de não ocorrer da forma como
vocês esperam.
—Como
assim? – Perguntou Malu com expressão de dúvida.
—Bom,
um garoto do passado, cujo nome, localização e características não posso
revelar, a não ser o fato dele ser brasileiro, vai escrever alguns contos em
uma plataforma online, contando a História de vocês, em suas perspectivas. Esse
menino vai mostrar para sociedade o que vai acontecer no futuro caso esse
fascista que está no poder ganhe, evitando dessa forma que os brasileiros votem
nele. Caso esse ditador realmente perca, tudo voltará como era a dois anos
atrás, ou seja, tudo o que vocês viveram não passara de um sonho. Caso
contrário vocês continuaram na mesma situação que estão, mas fiquem tranquilos,
vocês podem ficar aqui o tempo que precisarem.
—Mas
como o senhor fará isso? — Perguntei pasmo.
—Eu
aprendi muitas coisas nessa minha vida meu caro, difícil demais explicar os
mistérios desse mundo em uma simples fala.
—Precisamos
fazer algo para que esse “feitiço”, seja realizado? — Perguntou Malu enquanto
passava a mão nos fios cacheados.
—Mais
ou menos, para colaborar vocês precisam apenas de incentivarem pessoas da
atualidade a mudarem de opinião, pois vai colaborar no passado. Não peçam
explicação, isso é mais complexo do que vocês imaginam. Lembrem-se meus
queridos, faltam apenas dois dias para a votação no passado.
—Você
se refere ao segundo turno, certo? — Perguntei, me achando louco por acreditar
naquela baboseira.
—Exato!
Agora peço que vocês vão se deitar, em quartos separados, claro – nesse momento
nossos rostos coraram – amanhã comecem a influenciar as pessoas, e eu começarei
a fazer minha parte o mais rápido possível.
No
outro dia acordamos, tomamos café da manhã e depois fomos em várias casas
apresentar nossas visões sobre a ditadura tentando mudar as pessoas, sem
acreditar no que aquele velhinho havia falado. Mas independente se era verdade
ou não, manifestar era sempre válido. Quando começou a escurecer sentamos na
calçada de uma rua qualquer e eu perguntei para Malu:
—Já
pensou se essa história de feitiço for real? Apesar dessa ditadura nunca ter
existido, eu voltarei a ser um ignorante sobre esses assuntos.
—E
não vamos mais nos conhecer — Malu, disse olhando os carros que passavam
apressadamente.
Nesse
momento peguei suavemente seu queixo e fiz com que seu olhar repousasse no meu.
Enquanto nos olhávamos concentradamente, aproximei meus lábios do dela,
provocando um quase beijo, assim que ela fechou os olhos meus lábios não
resistiram e se envolveram nos dela, como se o mundo fosse só nós dois, como se
aquela ditadura realmente nunca tivesse existido.
Após
o beijo comecei a pensar se o lance do feitiço fosse realmente verdade, agora
pessoas estariam lendo no passado o conto escrito por um garoto que não
conhecemos, mas que conta a nossa História e também a História da Ditadura.
Isso faz com que o nosso futuro esteja nas mãos de outros brasileiros, nesse
exato instante, que só precisam exercer o direito do voto com consciência para
salvar o nosso futuro e também o do Brasil.
Gabriel Bhering
Primeira Publicação: http://www.projetomural.com.br/2018/10/retrocesso-parte-ii.html

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