RETROCESSO - PARTE III

(Fabiana Fontes)



Aviso: Caso ainda não tenha lido a Parte-I e a Parte -II, corre: https://bheringgabriel.blogspot.com/2019/06/retrocesso-parte-i.html
Depois volte aqui ;)


"Only hit until you cry
And after that you don't ask why
You just don't argue anymore"


Quando eu era mais nova eu adorava assistir os filmes da Disney, e sonhar como a Cinderela, Bela Adormecida, Branca de Neve ou qualquer outra princesa que no final sempre tinha o seu merecido “Final feliz”. Hora ou outra costumo pegar algum DVD na minha estante e me envolver nesse mundo encantado, que tem um contraste bem significativo quando comparado ao meu.


Assim que chegamos a casa do seu Aroldo e ele veio com aquele papo de feitiço eu me senti em um filme da Disney onde meus problemas seriam resolvidos com um passe de mágica, mas lá no fundo aquilo não tinha sentido nenhum. Todavia, acreditar naquela loucura era minha única esperança.


No dia da eleição de segundo turno que estaria ocorrendo no passado, eu e o Luka resolvemos ir a uma praça um pouco afastada para fazermos um protesto em nome da juventude que a cada dia que passa se torna mais alienada, com o intuito de contribuirmos no passado.


Conforme, fomos andando em direção ao local onde concluímos que seria o mais adequado para manifestarmos, comecei a pensar em nós dois. Quando ele me beijou, senti um misto de emoções e principalmente a certeza que eu estava apaixonada por ele. Engraçado pensar em coisas do coração mesmo quando nossa vida está um caos.


Antes de chegarmos a praça ele segurou o meu braço com firmeza fazendo com que minha atenção se voltasse a ele, assim que meus olhos pararam no dele meu corpo estremeceu todo.


—Se voltarmos para o passado, promete que vai se lembrar de mim?


Meus olhos se encheram de lágrimas, pois desde que o seu Aroldo contou sobre as condições do feitiço, eu não parava de pensar nisso. Não tinha nada que eu pudesse fazer, afinal, eu apenas voltarei a ser aquela garota ingênua que nunca foi presa, enquanto ele será um babaca.


Passei de leve a mão sobre seu queixo sentindo de leve sua barba por fazer espetando meus dedos, ele fechou os olhos com a intenção de eternizar aquele momento e a seguir me envolveu em um beijo tão intenso que eu jamais tinha recebido antes.


Quando chegamos a praça, começamos a falar em um megafone que arrumamos com o seu Aroldo.


—Pessoal, — dizia o Luka de um jeito que todos prestavam atenção — quantos jovens hoje vivem conforme um padrão estipulado pelo Estado? Mulher deve ser submissa ao homem? Negros devem ser subestimados e inferiorizados? A comunidade LGBT é sinônimo de crime? O Estado Laico, virou piada dos livros de História? O jovem que nasceu na periferia não merece ter uma chance antes de ir preso sem completar a maioridade? Parem! Parem de concordar com tudo, pensem além de leis, pensem com amor!

Uma senhora de meia idade sentada no banco do outro lado da praça ouvia tudo e batia palmas com cara de admiração. A movimentação estava pequena e por sorte não havia nenhum militar fazendo ronda.  Falei algumas palavras também, e algumas pessoas bateram palmas, enquanto outras criticavam com palavras ofensivas.


Encostado em uma árvore, um homem de terno veio se aproximando de mim e do Luka. Ele nos cumprimentou com bastante educação, comentando:


—Concordo plenamente com o que vocês disseram, estão de parabéns pela iniciativa de colocarem a cara a tapa mesmo em tempos tão difíceis como os que estamos vivendo.


Comentamos com ele um pouco da nossa história e ele pareceu bem comovido e preguntou:


—Vocês gostariam de ir em um programa de TV dar o depoimento de vocês sobre o que anda acontecendo? A propósito, sou jornalista e ajudo na produção do programa “Apenas fato”.


—Seria o máximo — disse o Luka sorridente — sempre assisto na internet, porque como é transmitido de madrugada devido a censura, acaba que fica mais complicado acompanhar em tal horário.


—Eu acho que já ouvi falar, mas não me lembro de ter assistido, mas claro, seria uma ótima oportunidade


—Só que tem um problema — disse ele raspando a garganta — o programa vai ao ar hoje e é justamente por esse motivo que estava na praça parado sem fazer nada, esperando que a pauta surgisse de algum acontecimento do cotidiano, e por sorte encontrei vocês.


Fiquei feliz pelo destino ter colocado ele na praça justamente hoje que viemos manifestar, mas ao mesmo tempo fiquei preocupada pelo fato de sermos fugitivos e irmos aparecer em rede nacional, mesmo que de madrugada. Comentei essa minha preocupação com o jornalista e ele disse que eu poderia ficar tranquila pois infelizmente a audiência era baixa.


Antes de voltarmos para casa ele perguntou se queríamos uma carona para o estúdio pois já estava quase escurecendo, concordamos afinal andar depois de uma determinada hora de noite era proibido. No meio do caminho pedi se ele poderia passar rapidinho na casa do seu Aroldo para avisarmos que chegaríamos mais tarde, e ele concordou.


Assim que chegamos no prédio da televisão fiquei encantada com o local todo dinâmico e contagiante. O jornalista que agora sabíamos que se chamava Henrique me direcionou para uma mulher adulta que me produziu e o Luka foi encaminhado para outra mulher. O primeiro passo foi fazer minha maquiagem e depois escolher a roupa. Ela perguntou meu tamanho e me colocou na frente de uma arara com roupas de todos os gostos equivalente ao meu tamanho, acabei optando por um vestidinho rosa, puxado para o nude. Quando me olhei no espelho até assustei com aquela garota toda produzida, pois ultimamente nem banho eu estava tomando.


Quando saí do camarim o Luka já estava me esperando do lado de fora com um sorriso de canto a canto. Ele estava com uma camisa xadrez e uma bermuda preta que deixava ele ainda mais lindo. Ficamos conversando sobre assuntos aleatórios como por exemplo “Você já pensou que um dia apareceria na TV?”, até que um moço veio nos comunicar que a filmagem começaria as setes horas para terminar antes das dez horas (horário proibido de movimentação).


Entramos no estúdio e sentamos no sofá confortável, e o apresentador que se chamava Theo apareceu nos cumprimentando e dizendo que quando fizesse um sinal de positivo a gravação começaria.


—Boa Madrugada, para você que está aí sem fazer absolutamente nada, hoje estamos aqui com a Malu e o Luka, que tem um fato bem interessante para contar a você aí de casa! Se liga, que o “Apenas fato” está começando!


Fiquei apenas sorrindo, sem saber exatamente o que fazer.


Ele pediu que contássemos tudo o que havia ocorrido e eu comecei falando cada detalhe segurando algumas lágrimas que insistiam em sair. O Luka, complementava algumas partes. Em um dado momento comentei o seguinte:


—Fui presa por lutar pelo direito da democracia, que já é debatida desde a Pólis Grega. O Brasil está vivendo um retrocesso tão grande, mais tão grande que lágrimas chegam a sair dos olhos do verdadeiro cidadão. Descriminar negros, mulheres, indivíduos da comunidade LGBT e muitos outros é ir contra os direitos humanos que viraram cinzas com a Constituição Outorgada. O povo brasileiro precisa levantar da cama e abrir os olhos para essa farsa que estamos vivendo, o povo brasileiro precisa ir à luta, por mais difícil que ela possa parecer!


Após uma semana que o programa foi ao ar, diversos jornais e mídias de todo o mundo começaram a narrar nossa história. Apesar do programa ser transmitido de madrugada a repercussão foi surpreendente. As manchetes diziam o seguinte: “Jovens brasileiros dão a vida em nome da democracia”, “Brasileiros fecham os olhos para dura realidade”, “Retrocesso é o atual nome do território brasileiro”.


Apesar desse assunto já ser comentado diariamente, após a nossa participação no programa esse comentário se alavancou, talvez porque pela primeira vez um fato que ocorreu foi apresentado com clareza. Assim que a repercussão começou a ocorrer nossos pais descobriram onde estávamos através de interrogatórios que provavelmente o pessoal da televisão foram obrigados a responder.


Primeiramente, nossos pais choraram de emoção ao nos ver, preocupados que algo de ruim tivesse acontecido conosco, e logo depois encheram a casa do seu Aroldo onde nos encontrávamos de sermões. Agradecemos ao seu Aroldo pela hospedagem e fomos levados para a prisão onde no outro dia ocorreu o julgamento que nos inocentou, afinal a justiça máxima estava do nosso lado, ainda mais com a nossa imagem favorecida.


Se passaram três meses e depois de tudo que ocorreu foi aberto um processo de cassação do mandato do ditador, e ele está prestes a ser expulso da presidência e dessa forma a ditadura finalizará. Mas é fundamental a contribuição do povo brasileiro.


Agora estou aqui sentada na grama ao lado do Luka pensando em tudo que aconteceu e chegando à conclusão que se não fosse essa ditadura eu e ele não estaríamos juntos agora. Além disso eu e o Luka concluímos que não existe feitiço que possa mudar o passado, mas existe feitiço que pode mudar o presente, quando comentamos isso com o seu Aroldo em uma visita que fizemos a ele, o bom senhor ficou entusiasmado por termos compreendido a moral da história inventada por ele.


Enquanto o Luka me envolvia pelo seu braço fiquei pensando que os próximos tempos ainda seriam difíceis, mas com o poder do feitiço que existe em cada um de nós, fica muito mais fácil de encontrar a luz da humanidade!


"My name is Luka
I live on the second floor
I live upstairs from you
Yes I think you've seen me before"

Gabriel Bhering


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